17. dez, 2014

O SONO E A MORTE - AULA 1/4

Em seus momentos despertos os homens são tão negligentes e descuidados com aquilo que os circunda como o são quando adormecidos.

 

Tolos! Embora ouçam, são como surdos; a eles aplica-se o adágio: mesmo presentes estão sempre ausentes. Não se deve agir ou falar como os que dormem. Os despertos têm um mundo em comum; os adormecidos, cada um o seu próprio mundo privado. Tudo o que vemos quando despertos é morte, quando adormecidos, são sonhos. (Heráclito)

 

A cruz tem dois caminhos interessantíssimos:


1. O caminho horizontal percorrido por Jesus: sofrimento quando traído, no ódio, nas mentiras políticas e religiosas, na traição e no abandono e na morte.

 

2. O caminho vertical percorrido por Cristo que mediante a tribulação que produziu paciência que gerou experiência e esperança em Jesus na horizontal, alcançou a ressurreição na vertical.

 

Heráclito toca o problema mais profundo do homem, o de permanecer profundamente adormecido mesmo quando desperto.

 

Você dorme quando dorme, mas dorme também quando está desperto. O que isso significa? Pois é isso o que diz Jesus. Você parece bem acordado, mas apenas na aparência; no fundo está sempre dormindo.

 

Até mesmo agora está dormindo por dentro: continuam mil e um pensamentos e você não tem consciência do que está acontecendo, não percebe o que está fazendo, não sabe quem você é. Move-se como as pessoas que se movem dormindo.

 

Você já deve ter visto alguém que se move dormindo, faz uma coisa, faz outra, e depois volta para a cama. A este distúrbio chamamos sonambulismo. Muitos se levantam à noite de suas camas; seus olhos estão abertos, podem se mover! Movimentam-se, encontram a porta. Vão à cozinha, comem alguma coisa, voltam e deitam-se na cama. E se de manhã alguém pergunta o que fizeram, eles não sabem dizer. No máximo, se tentarem lembrar, acharão que à noite tiveram um sonho, no qual se levantaram e foram à cozinha . Mas, no máximo foi um sonho; mesmo isso é difícil lembrar.

 

Muitas pessoas cometeram crimes; muitos assassinos disseram no tribunal que não se lembravam de ter feito tal coisa. Não que estivessem tentando enganar a corte. Não. Agora os psicanalistas descobriram que eles não estão enganados, não estão mentindo; acreditam totalmente nisso. Eles cometeram assassinato __ como num sonho. Esse sono é mais profundo que o comum. Esse sono é como estar bêbado: você pode se movimentar um pouco, fazer algumas coisas pode também estar um pouco consciente __ mas bêbado; não sabe exatamente o que está acontecendo. O que você fez no passado? Pode lembrar-se exatamente? Por que fez o que fez? O que aconteceu com você? Estava alerta enquanto estava acontecendo? Isto é: “Vigiando e orando?” Você se apaixona e não sabe por quê? Sente raiva e não sabe por quê? É claro que pode encontrar desculpas; racionaliza tudo o que faz __ mas racionalização não é consciência.

 

A origem da palavra ‘pecado’ é estar ausente (fora do alvo). Significa simplesmente estar à parte, estar ausente, estar fora. A raiz hebraica para a palavra ‘pecado’ significa estar ausente. Quando alguém usa droga ele diz que esta viajando, se está “viajando”, então sua casa (interior) com todos os cômodos estão desprotegidos: a sala - o corpo físico; a cozinha _ o corpo almático e o quarto - o corpo do espírito. Isso ocorre em algumas palavras inglesas: ‘misconduct’ (ausência de conduta) e ‘misbehavior’ (ausência de comportamento). O verbro ‘to miss’ significa não estar presente, fazer alguma coisa sem estar presente __ este é o único pecado. E a única virtude consiste em fazer alguma coisa em completo alerta__ o que Gurdjieff chama de “lembrança de si”, o que Buda chama de “estar corretamente atento”, o que Krishnamurte chama de “consciência”, o que Kabir chamou de “surati, estar presente”! Isso é tudo o que é preciso, mais nada; você não precisa mudar nada. E mesmo que tente ajudar, não pode.

 

Você tem tentado mudar muitas coisas dentro de si. Conseguiu? Quantas vezes decidiram não sentir raiva novamente? O que houve com sua decisão? Quando chega a hora você cai de novo na mesma armadilha: sente raiva; e quando a raiva se vai, você se arrepende. Tornou-se um círculo vicioso: descarrega a raiva e se arrepende, depois está pronto para descarregar outra vez.

 

Lembre-se: mesmo quando está se arrependendo, você não está presente; esse arrependimento também faz parte do pecado (da ausencia). É por isso que nada acontece. Você continua tentando, tentando, toma muitas decisões, faz muitas promessas, mas nada acontece __ você permanece igual, é exatamente o mesmo que quando nasceu, nem uma leve mudança aconteceu em você. Não que você não tenha tentado; não que não tenha feito o suficiente. Você tentou, tentou, tentou, e fracassou, porque não é uma questão de esforço. Mais esforço não vai adiantar. É uma questão de estar alerta, e não de se esforçar. Se você está alerta, muitas coisas simplesmente desaparecem; você não precisa abandona-las. Quando se está alerta, certas coisas são impossíveis. Esta é minha definição de pecado.

 

Estando alerta, somente certas coisas são possíveis __ as virtudes. Não existe nenhuma outra definição, nenhum outro critério. Você não pode se apaixonar se estiver alerta; apaixonar-se é um pecado. Você pode amar, mas isso não será uma queda, será uma ascensão. Por isso é possível ver as pessoas apaixonadas pelos seus olhos: é como se elas estivessem mais adormecidas do que as outras, estivessem intoxicadas, sonhando. Pode-se ver que os seus olhos revelam uma sonolência. Já as pessoas que se elevam no amor são totalmente diferentes. Pode-se notar que elas não estão mais num sonho, estão vendo a realidade e crescendo através dela.

 

Caindo de amor você permanece criança; elevando-se no amor você amadurece. E aos poucos o amor vai se tornando um estado de ser, e não um mero relacionamento. E assim você não ama mais isso ou aquilo, mas você simplesmente ama. Seja quem for que se aproxime, você compartilha. Dá o seu amor a tudo o que está acontecendo. Toca uma pedra como se estivesse tocando o corpo da pessoa amada. Olha as árvores como se estivesse olhando para a pessoa amada. Torna-se um estado de ser. Não que você esteja amando __ agora, você é amor. Isto é elevar-se e não cair.

 

O amor é belo quando através dele você se eleva, e o amor torna-se sujo e feio quando através dele você cai. E mais cedo ou mais tarde você acaba descobrindo que é um veneno, torna-se uma escravidão. Você foi apanhado nele, a sua liberdade foi massacrada, as suas asas foram cortadas, agora você não é mais livre. Cair no amor é tornar-se possessivo; você possui e permite que o outro o possua. Você se torna uma coisa e tenta transformar o outro por quem você se apaixonou numa coisa.

 

Veja um marido e uma esposa: ambos tornaram-se objetos, não são mais pessoas. Ambos estão tentando possuir um ao outro __ somente as coisas podem ser possuídas, as pessoas jamais! Como se pode possuir uma pessoa? Como se pode dominar uma pessoa? Como se pode converter uma pessoa em posse? Impossível! Por isso o texto: “Eis que estou a porta e bato...” note que não é arrombamento, possessão e sim a voluntariedade que só encontra-se no amor. Mas o marido está tentando possuir a esposa; a esposa está atentando a mesma coisa. Surgem então as colisões, ambos se tornam basicamente inimigos, destroem-se mutuamente.

 

 

Israel Sarlo

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