26. mar, 2014

PARTE 3 - JUDAÍSMO: "esperança" política e religiosa

 

A BÍBLIA E SUAS ESCOLAS RELIGIOSAS E FILOSÓFICAS (continuação).

 

Diante de condições políticas tão desalentadoramente adversas, parecia que só por intervenção divina a esperança messiânica poderia concretizar-se. No tempo de Cristo, tal esperança implicava a destruição da autoridade romana pela intervenção divina mediante um messias, e o estabelecimento de um reino de Deus, no qual floresceria um judaísmo libertado e poderoso, sob o governo de um rei messiânico justo de descendência davídica, reino esse para o qual acorreriam todos os judeus dispersos pelo Império Romano. Seria o início de uma idade áurea. Para o judeu comum, era provável que isso significasse simplesmente a expulsão dos romanos, por intervenção divina, e a restauração do reino de Israel. Era crença comum, baseada em Malaquias 3:1, que a vinda do Messias seria anunciada por um precursor.

 


Essas esperanças eram fomentadas pela literatura apocalíptica, com seu pessimismo em relação ao presente e sua visão colorida da idade vindoura. Os escritos eram em geral atribuídos a antepassados notáveis. É o caso , por exemplo, da profecia de Daniel, incluída no cânone do AT (Antigo Testamento), do livro de Enoque, da Assunção de Moisés, e tantos outros. Exemplo cristão desse tipo de literatura, embora preenhe de conceitos judaicos, é o livro do Apocalipse, incluindo no NT (Novo Testamento). Tais obras incutiam uma atitude religiosa de abertura para o futuro e esperança, atitude essa que deve ter servido para compensar o legalismo rígido da interpretação farisaica da lei.

 


Presentes na Palestina desse tempo encontravam-se ainda outras correntes de vida religiosa cuja penetração é impossível avaliar, mas cuja realidade é evidente. Distante dos crentes do judaísmo oficial, especialmente nas regiões agrícolas, havia uma piedade mística muito concreta. Era a piedade dos últimos Salmos e dos "pobres de espírito" do NT. É bem provável que o "Magnificat" e o "Beneditus" (Lucas 1:46-55; 68-79) tenham sido expressões desse tipo de religiosidade, também consubstanciada nas assim chamadas Odes de Salomão. Dessa piedade mais simples, em maior ou menor sentimento místico, provinham apelos proféticos ao arrependimento, dentre os quais os de João Batista são os mais conhecidos.

 


A descoberta dos manuscritos do Mar Morto veio chamar a atenção para essa piedade e para a existência de uma facção do judaísmo distinta da dos saduceus e fariseus. A biblioteca e as ruínas do mosteiro da comunidade de QUNRAN, na margem noroeste do Mar Morte, revelaram a localização de uma irmandade vinculada de certa forma aos essênios, a respeito de quem Fílon, Josefo e Plínio, o Velho, escreveram no primeiro século da nossa era. É bem provável que muitas outras comunidades semelhantes a essa tenham existido. Levavam uma vida semimonástica, protestando contra o judaísmo oficial de Jerusalém. Às vezes, como no caso dos essênios, renunciavam ao casamento; outras permitiam, ou seja dentro da propria comomunidade de QUNRAM havia divisões por conta de costumes, como nesse caso.

 

 

Esses "puritanos" ou "contrastantes", como poderiam ser chamados, consideravam-se verdadeira congregação de Israel, o remanescente fiel. Tinham a lei em alta contra e interpretavam-na a seu próprio modo. Diziam-se especialmente "iluminados", razão porque se declaravam guardiães do sentido exato da lei, em meio às previsões da época. Veneravam um certo "Mestre de Justiça" (cuja identificação histórica permanece ainda obscura) como o verdadeiro intérprete da lei. Submetiam-se a purificação periódicas, observavam um rito anual de adesão e renovação da Aliança, e partilhavam de uma refeição sagrada de pão e vinho. Quando as regras da comunidade (preservadas no Manual de Disciplina) eram violadas, exerciam severo disciplinamento. A piedade nobre, embora um tanto legalista da comunidade, é evidente nesse documento, e o aspecto mais místico está patente nos Salmos de Ação de Graças, documentos encontrados nas escavações.

 

Continuaremos na próxima aula... Bom estudo.

 

por Israel Sarlo.