27. mar, 2014

PARTE 4 - O JUDAÍSMO

 

BÍBLIA E SUAS ESCOLAS RELIGIOSAS E FILOSÓFICAS: Heranças Religiosas e Filosóficas (continuação).

 

A organização da comunidade compreendia vários postos: Um “superintendente”, “Sacerdotes de Sadoque”, “Os doze Perfeitos”, ou “Anciãos”, “Juízes” e outros. Resta acrescentar que aguardavam fervorosamente a redenção de Israel. Criam que um novo Profeta, um novo Mestre, Sumo-Sacerdote e Rei (personagens messiânicos) se levantaria para reunir as hostes dispersas de Israel, derrotar seus inimigos e instauraria a era do Reino.

 

Tem sido muito debatida a hipótese da influência desses grupos sobre João Batista e sobre o cristianismo primitivo. Parece claro, contudo, que havia muitos pontos em comum e que, embora o NT (Novo Testamento) omitisse qualquer referência a essa corrente sectária do judaísmo do primeiro século, o cristianismo muito deveu a ale. Não é impossível que João Batista e alguns dos primeiros discípulos de Jesus tenham pertencido uma vez a tais comunidades.

 


Devemos fazer referência a uma outra corrente de pensamento no judaísmo daquela época, especialmente em razão da influência que exerceu sobre o desenvolvimento da teologia cristã. Referimo-nos à corrente que dava ênfase à “sabedoria”. Atribuía a existência praticante personificada, como subsistente ao lado de Deus, unida a Ele, por Ele “possuída” do mundo e agente seu na criação (Provérbios 3:19; 8; Salmos 33:6). É possível divisar nessas ideias a influência da noção estoica do Logos divino que tudo penetra. Há nelas uma conotação mais ética do que a que se nota no ensino grego correspondente. Vê-se, porém, que seria fácil uma assimilação entre as duas idéias.

 


É natural que, ao falar no judaísmo, se dê atenção em primeiro lugar à Palestina, seu lugar de origem e berço do cristianismo. No entanto, grande foi a importância da dispersão dos judeus fora da Palestina, não só para a vida religiosa do Império Romano como um todo, mas também para o efeito reflexo que o, conseqüentemente, contacto com o pensamento helênico teve sobre o próprio judaísmo. Essa dispersão começará com as conquistas dos monarcas assírios e babilônicos, e foi fomentada por muitos governantes, notadamente os Ptolomeus do Egito e os grande romanos dos últimos dias da republica e do começo do Império.

 

Quaisquer dados estatísticos não passarão de conjeturas, mas é provável que, à época do nascimento de Cristo, o número de Judeus fora da Palestina fosse cinco ou seis vezes superior ao dos radicados dentro de suas fronteiras. Constituíam parte ponderável da população de Alexandria. Haviam criado profundas raízes na Síria e na Ásia Menor. Embora em número relativamente pequeno, estavam presentes também em Roma. Eram poucas as cidades do império em que não fizessem notar sua presença.

 

Olhados com suspeita pelas populações pagãs, dada a tendência a unir-se em grupos fechados, os judeus prosperavam no comércio, eram apreciados pelos governantes em virtude de suas boas qualidades, viam em geral respeitados seus escrúpulos religiosos e, por sua vez, davam mostras de um espírito missionário que fazia notada sua influência religiosa. Tal como praticado em terras pagãs, o judaísmo da dispersão era um credo muito mais simples do que o farisaísmo palestinense.

 

Pregava o Deus único, que tinha revelado sua vontade nas ESCRITURAS SAGRADAS; uma moralidade vigorosa, uma vida futura com recompensas e castigos e uns poucos mandamentos, relativamente simples, referente ao “SABBATH”, à circuncisão e ao uso simples e despido de ritualismo. Exercia grande atração para muitos pagãos. Além dos prosélitos, as sinagogas reuniam ao seu redor um número muito maior de conversos parcialmente judaizados, os chamado “devotos”. Foi dentre os deste último grupo que a propaganda missionária cristã incipiente recrutou os seus primeiros ouvintes.

 

por Israel Sarlo