10. abr, 2014

PARTE 14 - FINAL DO TEMPO APOSTÓLICO

 

A BÍBLIA E SUAS ESCOLAS RELIGIOSAS E FILOSÓFICAS

 

Não nos são conhecidos os fatos referentes à vida da maioria dos apóstolos. Pedro não poderia ter estado em Roma ao tempo em que Paulo de lá escrevia suas Cartas. No entanto, as fortes indicações de que dispomos nesse sentido levam-nos a concluir, com grande probabilidade, que Pedro esteve em Roma, ao menos por algum tempo, e que sua estada terminou em martírio, crucificado durante a perseguição movida por Nero. Note bem: disse, possibilidade. Mas as Escrituras não nos afirmam isto, mas as tradições e afirmações de alguns homens chamados de “pais da igreja” como Clemente, Inácio, Irineu Caio de Roma e tantos outros. Alguns textos para conferir: (1ª Pd. 5:13; Jo. 21:19, 19). Por causa dessa estada, dizem eles, e, especialmente, do seu martírio, o nome desse apóstolo viria a ser permanentemente associado à igreja romana. De outra parte, o fato de João ter residido em Éfeso é muito menos certo.

 

 

A perseguição iniciada por Nero foi feroz e restringiu-se aos limites da capital do Império. Depois do grande incêndio de Roma, em julho de 64, levantaram-se, provavelmente por instigação de Nero, acusações que envolviam injustamente os cristãos. Nero queria com isso desviar os rumores que o apontavam como culpado.

 

 

Inúmeros foram mortos em meio a horríveis torturas nos jardins do Vaticano, onde o Imperador transformou o martírio dos cristãos em espetáculo público. Desde então, Nero passou a ser considerado o protótipo do anticristo pela tradição cristã. A igreja romana, porém, não só sobreviveu a essa provação, mas fortaleceu-se. A destruição de Jerusalém, ao término da rebelião judaica, em 70, foi um evento de importância mais permanente, pois quase pôs fim à já descrente influência das congregações da Palestina sobre os aspectos mais vastos da vida da Igreja.Tal colapso, aliado ao rápido crescimento do número de conversos de origem pagã, logo fez com que a luta de Paulo, em favor da liberdade, em relação à lei judaica, perdesse sua importância.

 

 

Antioquia, Roma e, antes do fim do século, Éfeso tornaram-se então os centros principais da expansão cristã. Os conversos provinham principalmente das classes sociais inferiores (1ª Co. 1:26-28), embora entre eles encontrassem alguns das camadas mais altas, especialmente mulheres. Como exemplos temos Lídia de Filipos (At. 16:14) e, em escalão social muito superior, provavelmente o cônsul Flávio Clemente e sua mulher, Flávia Domitila, os quais, sob o governo de Domiciano, em 95, sofreram, o primeiro, morte, e a segunda, degredo, em Roma. A Igreja em Roma deve a Domitila uma de suas mais antigas catacumbas. Pouco se sabe dessa perseguição movida por Domiciano (81-96), exceto que deve ter sido de grande severidade tanto em Roma como na Ásia Menor (1º Clemente,1; Ap. 2:10, 13; 7:13, 14).

 

 

Apesar de um ou outro indício preservado, os quarenta anos entre 70 e 110 são até hoje um dos períodos mais obscuros da história da Igreja. Só temos a lamentar tal fato, pois essa foi uma época de rápidas mudanças na própria Igreja. Quanto, mais tarde, os característicos da Igreja voltam a ser claramente identificados, nota-se que pouquíssimos dos traços distintivos deixados por Paulo estão presentes.

 

 

Muitos outros missionários além de Paulo, hoje desconhecidos, devem ter trabalhado. Além disso, a penetração de idéias provindas de fontes outras que não as cristãs, sem dúvidas, trazidas por conversos de antecedentes pagãos, modificaram as crenças e as práticas cristãs, especialmente no que tange aos sacramentos, aos jejuns e ao surgimento das formulas litúrgicas. Desaparecia a antiga convicção da direção imediata do Espírito, sem, contudo, extinguir-se por completo. Durante esse período, a constituição da Igreja sofreu profunda evolução, a que faremos referência mais adiante.

 

 

Exemplo desse tipo de cristianismo não-paulino, embora isento de idéias de origem pagã, temos na Carta de Tiago, escrita no conteúdo teológico, restringe-se quase que totalmente as instruções de caráter ético. Na concepção do seu autor, o cristianismo é um conjunto de princípios certos devidamente praticados. A fé não é, como no caso de Paulo, uma revelação nova, vital, pessoal. Equaciona com a convicção intelectual, que deve ser suplementada por ações apropriadas. É uma lei moral nova e simples (Tg. 12:25; 2:14-26).

 

 

por Israel Sarlo.