15. abr, 2014

PARTE 16 – A HERMENÊUTICA DE JESUS


A BÍBLIA E SUAS ESCOLAS RELIGIOSAS E FILOSÓFICAS

 

 

Que se deve pensar de Cristo? Eis aí uma pergunta de importância fundamental que surgiu concomitante à proclamação cristã, e que reclama consideração por parte da Igreja de todas as épocas.

 

 

A cristologia mais primitiva, como já notamos, era de caráter messiânico. Jesus era o Messias da esperança judaica, embora num sentido espiritualmente muitíssimo mais elevado do que se cria então. Ele se "foi", mas só por um pouco de tempo (At. 3:21). Estava agora exaltado e, no entanto, que se poderia pensar a respeito de sua vida terrena, tão despida daquilo que os homens comumente chamam de "glória"? Essa vida de humilhação, que findou com uma morte de escravo, nada mais era do que o cumprimento da profecia. Deus tinha anunciado previamente as coisas que "o seu Cristo havia de padecer" (At. 3:18). O pensamento primitivo dos cristãos judaicos voltava-se para o servo sofredor de Isaías, que fora "traspassado pelas nossas transgressões" (Is. 53:5). Cristo é o "Servo" ou "Filho" (pais theou), segundo os primeiros discursos de Pedro (At. 3:13, 26; 4:27, 30). A glorificação deu-se na ressurreição. Agora Ele está "exaltado à destra de Deus" (At. 2:32; 4:10, 12). Esse primitivo conceito do Servo Sofredor exaltado persistiu na Igreja. É o que se acha presente na epístola conhecida apelo nome de 1ª Pedro (3:18-22), apesar dos vários acréscimos de origem paulina. É também o que demonstra Clemente, que de Roma escreveu aos coríntios, em 93-97. Nele não está implícita, necessariamente, a noção de preexistência, nem esclarece qual seja a revelação entre Cristo e Deus. Na realidade, ainda não se defrontara com tal problema.

 

 


Uma distinção tornou-se desde logo evidente. Os discípulos tinham conhecido o Cristo na sua vida sobre a terra. Agora conheciam-no mediante os seus dons, na sua exaltação. Tenham-no conhecido segundo a carne; agora conheciam-no segundo o espírito (Rm. 1:3,4), isto é, como Jesus da história e como Cristo da fé. Ao menos à primeira vista, esses dois aspectos não se coadunavam facilmente.

 

 

O Jesus da história viveu num país específico, sob as condições humanas de espaço e tempo. O Cristo da fé é o Senhor de todos os seus servos, manifesta-se como Espírito em lugares os mais diversos ao mesmo tempo, sendo onipresente e onisciente. Paulo considerava que uma das características específicas do cristianismo estava no fato de os homens poderem invocá-lo em todo lugar (1ª Co. 1:2), e Ele mesmo orava a Cristo (2ª Co. 12:8, 9). Ao afirmar solenemente que seu apostolado não era de origem humana, Paulo coloca Deus e Cristo juntos como fonte de seu ministério (Gl. 1:1).

 

 

Evidente que esses atributos e poderes do Cristo da fé são de caráter divino, e era inevitável que suscitassem o problema, até então não levantado, da relação entre Cristo e o Pai, especialmente, se levarmos em consideração o fato de que, mais do que os outros discípulos, Paulo era homem dotado de grande capacidade intelectual e cultura.

 

 

por Israel Sarlo