16. abr, 2014

PARTE 17 – A HERMENÊUTICA DE JESUS (continuação)

A BÍBLIA E SUAS ESCOLAS RELIGIOSAS E FILOSÓFICAS

 

 

 

Paulo tinha um bom conhecimento da teologia hebraica, com o seu conceito de "sabedoria" divina presente em Deus, antes da fundação do mundo (Pv. 8:22, 23).

 

 

 

Estava também familiarizado com o estoicismo, com sua doutrina da inteligência divina universal, onipresente, operante, isto é, o Logos, que em muito se assemelhava à sabedoria hebraica. Era-lhe também familiar a idéia do servo sofredor de Isaías.

 

 

 

Para Paulo, por conseguinte, a identificação do Cristo exaltado com a sabedoria divina, o Logos, era não somente fácil, mas também natural. E a sabedoria, o Logos, era forçosamente preexistente e devia ter estado sempre com Deus. Ele é o "espírito de Deus" (1ª Co. 2:10, 11).

 

 

 

(Um parêntese: Eu sempre tive em minha mente a necessidade das religiões, no sentido de preparação, assim como Paulo, religioso, preparado para este encontro com o Mestre. Para ele foi mais fácil. Se falarmos de Cristo para uma pessoa nada religiosa, será difícil, não tem nada armazenado. Mas se houver algum conhecimento e a pessoa for armada e não estiver pronta para entender e assim se desarmar, será mais difícil que o não religioso).

 

 

 

Continuando o raciocínio de 1ª Coríntios 2:10, 11, a "sabedoria de Deus" (1ª Co. 1:14). "Nele habita corporalmente toda a plenitude da Divindade" (Cl. 2:9). Mais do que isso, e semelhantemente à idéia estóica do Logos, Ele é o agente divino na criação. "Tudo foi criado por meio dele e para Ele" (Cl. 1:16). Embora nunca tenha chamado explicitamente Cristo de Deus (A tradução de Romanos 9:5 que dá a entender o contrário não deve ser considerada paulina), Paulo ensinava a unidade de caráter existente entre Cristo e Deus. Cristo "não conheceu pecado" (2ª Co. 5:21). É a plena manifestação do amor de Deus, que é maior do que qualquer amor humano, e a fonte de que se origina a vida cristã em nós (Rm. 8:39; 5:7, 8; Gl. 2:20). É óbvio, portanto, que, embora seguidamente o chame de homem, Paulo atribui ao Cristo posição absolutamente única, equacionando-o com Deus.

 

 

 

Se, para Paulo, o Cristo da fé é preexistente e pós-existente na glória, como explicar o Jesus da história? Ele foi o servo sofredor (Fl.2:6-11). À sua humildade, obediência seguiu-se a grande recompensa, tal como também o afirma a concepção anterior exposta por Pedro. "Pelo que também Deus o exaltou sobremaneira e lhe deu o nome que está acima de todo nome, para que... toda língua confesse que Jesus Cristo é Senhor". Paulo considera a vida terrena de Jesus inteira como uma vida de humilhação. Era de fato significativo. "Deus estava em Cristo, reconciliando consigo o mundo" (2ª Co. 5:19). No entanto, foi só "pela ressurreição" que ele "foi poderosamente demonstrado Filho de Deus" (Rm. 1:4).

 

 

 

Na cristologia de Paulo, portanto, cominam-se de maneira notável conceitos hebraicos e gentílicos, manifestando-se nela o servo sofredor e exaltado, a sabedoria divina preexistente, o agente divino na criação e o poder redentor que, por amor dos homens, desceu do céu, morreu e ressuscitou.

 

 

 

Meia geração após a morte de Paulo, porém, aprece uma interpretação diversa, representando provavelmente uma linha independente de raciocínio. É a representada pelo Livro Biográfico de Marcos. O escritor desconhece a idéia paulina da preexistência de Cristo. Para ele, a partir do batismo, o Cristo se torna, por adoção, o Filho de Deus (Mc. 1:9-11). O esforço do evangelista se concentra em mostrar que, daí por diante, ele era o Filho de Deus, em tudo o que se passou na sua peregrinação terrena. Houve, é verdade, humilhação, mas houve também glória na sua vida terrena – e disso Paulo não dá quaisquer indicações. Não lhe foi necessário esperar pela demonstração fornecida pela ressurreição. A voz do céu o pronunciaria Filho no batismo. O homem com espírito imundo o saudara como "o Santo de Deus" (Mc. 1:24), quando do seu primeiro sermão. Os espíritos dos possessos clamam: "Tu és o filho de Deus" (Mc 3:11). Ele fora transfigurado diante de Pedro, Tiago e João, enquanto a voz do céu proclamava: "Este é o meu Filho amado" (Mc 9:2-8). A única explicação que o evangelista encontra para a circunstância de não ter havido um reconhecimento universal desse fato durante a vida terrena de Cristo, é a declaração de que o próprio Jesus ordenara aos espíritos e aos discípulos que não o divulgassem (Por ex., Mc 1:34; 3:12; 5:43; 9:9). A diferença entre esta e a interpretação de Paulo é evidente.

 

 

 

Bem, no próximo capítulo vamos dá continuidade a esta HERMENÊUTICA de CRISTO. Sei que está emocionante esta aparente disputa entre Paulo e Marcos, mas vamos entender direitinho esta aparente divergência.

 

 

 

por Israel Sarlo