17. abr, 2014

PARTE 18 – A HERMENÊUTICA DE JESUS (continuação)

A BÍBLIA E SUAS ESCOLAS RELIGIOSAS E FILOSÓFICAS

 

 

A idéia de Marcos era claramente insatisfatória para a sua própria época. Não incluía uma teoria efetiva da Encarnação. A idéia de Jesus como Filho de Deus não tem raízes suficientemente profundas. Se for verdade que o fato de Jesus ser Filho de Deus se manifestou em certas circunstâncias, como se explica não ter ele sido manifesto em todo o correr da sua existência terrena? Não fiquem preocupados com todo este material exposto, isto não desmerece a autenticidade e veracidade da BÍBLIA, apenas desejo capacitar as pessoas na BÍBLIA, na "ESCOLA DO MESTRE".

 

 

A BÍBLIA é muito democrática, ela conta tudo, por isto Jesus fala que as pessoas examinam a BÍBLIA achando ter nela vida eterna e dizendo que a BÍBLIA testifica dEle mas na verdade estes que a examinam não querem vir até Ele para terem vida (Jo. 5:39, 40).

 

 

Estes tais problemas, voltando a falar sobre Marcos, chamaram a atenção dos escritores dos dois outros Livros Biográficos, Mateus e Lucas. Como Marcos não evidencia nenhum indício de influência da idéia paulina da preexistência. Esses escritores não respiravam o mesmo ambiente teológico e filosófico de Paulo. No entanto, nos seus relatos, a manifestação da filiação divina de Cristo remonta ao início da existência terrena. Segundo eles, Jesus teve um nascimento de caráter sobrenatural. Tal como Marcos, consideram que a vida terrena não foi uma vida simplesmente de humilhação.

 

 

Mas para mentes imbuídas do pensamento de Paulo, mesmo essas interpretações não eram suficientes. Um quarto Livro veio a aparecer, por volta de 95-110, provavelmente em Éfeso, e logo foi preferido, não só por causa da interpretação profundamente espiritual do sentido do Cristo, mas também porque cominava harmoniosamente os diversos elementos das cristologias até então existentes. No Livro que leva o nome de João, a preexistência e a atividade criadora de Cristo merecem o mesmo lugar de destaque que tinham no pensamento de Paulo. Cristo é o Logos, o Verbo que "estava com Deus, e o Verbo era Deus". "Todas as coisas foram feitas por intermédio dele" (Jo 1:1-3). Ao contrário de Mateus e Lucas, nada se diz do nascimento virginal. Ressalta, no entanto, o ensino da Encarnação, real, embora inexplicável "O Verbo se fez carne, e habitou entre nós" (Jo. 1:14). Dá-se ênfase muito maior à tendência dos Livros mais antigos, no sentido de ver na vida terrena de Cristo não só humilhação, mas glória.

 

 

Nessa vida ele primordialmente "manifestou a sua glória" (Jo2:11; cp. 1:14). À mulher de Samaria ele declara taxativamente que é o Messias (Jo. 4:26). Acuam-no de fazer-se "igual a Deus" (Jo. 5:18). Lembra-se da glória que tinha na sua preexistência (Jo. 17:5). Segue o curso de sua existência triunfantemente cônscio de sua elevada missão divina. Da narrativa do episódio do jardim do Getsêmani, está ausente a oração patética para que dele passasse o cálice (Jo. 18:1-11 cf. Mc. 14:32-42). Na história da crucificação não existe o grito angustiado: "Deus meu, por que me desamparastes?" (Mc. 15:34). Ao contrário, como que tendo acabado uma obra predeterminada, ele morre com as palavras: "Está consumado!" (Jo. 19:30). Não há dúvida de que esse tipo de cristologia era altamente satisfatória para o século II. Propunha uma explicação, natural para a época, do senhoria que os cristãos em todas os lugares atribuíam ao Cristo. Preservava os elementos mais valiosos das cristologias mais antigas. Apesar das opiniões em contrário que viriam surgir, contribuiu em muito para a formação da visão doutrinária que haveria de transformar-se em ortodoxia.

 


Apesar da cristologia joanina, subsistiam resquícios de uma interpretação mais simples, menos filosófica. Era o caso dos remanescentes obscuros de uma facção cristã de judaizantes extremados, conhecidos, no século II, como os ebionitas. Para estes, Jesus era o filho de José e Maria, que tinha cumprido a Lei Judaica de maneira tão completa, que Deus o escolhera para ser o Messias. Tenha refinado e complementado a Lei, e voltaria outra vez para fundar um reino messiânico para os judeus. Sob a mesma descrição, embora de maneira muito diversa, poder-se-ia classificar Hermes de Roma (115-140), que procurou fundir a doutrina paulina do "Espírito preexistente e santo que criou a criação inteira" (Aos Esmineus, 5:6), com a do servo sofredor e exaltado. O "servo", retratado como escravo na vinha de Deus é "a carne, na qual habitou o Espírito Santo... procedendo retamente em piedade e pureza, e de modo nenhum manchou o Espírito". Mas essa recompensa não lhe é peculiar. Ele nada mais é do que um precursor, "porque receberá recompensa toda carne que se encontrar sem mancha nem mácula e na qual habitou o Espírito Santo". Em certo sentido, essa idéia é claramente adocionista. Não era fácil as inteligências pouco treinadas filosoficamente cominar, de modo a formar um todo harmonioso, a figura do Jesus da história com o Cristo da fá. Mesmo nas interpretações filosóficas, esses contrastes teve muito que ver com o surgimento e a expansão do gnosticismo, durante o século II.

 

 

Calma! Pois na próxima aula vamos trazer mais novidades, no entanto quero dizer que a dificuldade de Paulo, alem mesmo com os apóstolos e os discípulos de Jesus foi uma barra difícil. A preexistência de Jesus não era bem recebida e entendida, como estamos estudando, os Livros Biográficos não esclareciam isto e por isto a visão sobre Jesus era muito reduzia. João e Paulo foram os que trouxeram esta existência até nós e de maneira sofrida. João deportado de Éfeso para Pátimos e Paulo para Roma e as filosofias e os vários ramos religiosos do judaísmo tudo fizeram para que a verdade sobre o Mestre não viesse até nos. Estes homens pagaram caro pela ousadia em trazer a verdade a toda humanidade.

 

 

por Israel Sarlo