21. abr, 2014

PARTE 20 – A HERMENÊUTICA DE JESUS (continuação)

A BÍBLIA E SUAS ESCOLAS RELIGIOSAS E FILOSÓFICAS

 

 


NA "ESCOLA DO MESTRE" a literatura joanina coloca-se num plano espiritual altamente elevado. Convém reparar como esses problemas eram encarados por um escritor contemporâneo pertencente à mesma "ESCOLA", um cristão igualmente sincero, mas de elevação espiritual muito menor: Inácio de Antioquia. Condenado, por ser cristão, na sua própria cidade, nos últimos anos do reinado de Trajano (110 - 117), Inácio foi mandado como prisioneiro para Roma, para ser lançado às feras.

 

 

Pouco se conhece de sua historia. Escreveu, porém, várias cartas breves, seis delas às igrejas de Éfeso, Magnésia, Trales, Roma, Filadélfia e Esmirna, além de uma mensagem pessoal a Policarpo, bispo de Esmirna. São documentos impregnados de gratidão pelas gentilezas a ele feitas durante sua viagem, de conselhos a respeito de perigos espirituais e de exortações à unidade. De sua importância para a história das instituições falaremos mais adiante. Inácio professava o mesmo tipo elevado de cristologia que se encontra nos documentos joaninos.

 

 

O sacrifício de Tirsito é "o sangue de Deus". Saúda os cristãos romanos em "Jesus Cristo, nosso Deus". No entanto, não chega a identificar exatamente Cristo como Pai. Cristo - escreve ele - "em realidade é da estirpe de Davi, segundo a carne, Filho de Deus por vontade e poder de Deus". Tal como a literatura Joanina, Inácio afirmava de maneira segura que a união com Cristo é necessário à vida: "Fora do qual não podemos ter a vida verdadeira". E a vida, contínua nos é transmitida diante a Ceia do Senhor, a qual é descrita nos seguintes termos: "Partindo o mesmo pão, o qual é medicamento de imortalidade, antídoto para não morrer, mas, antes, para viver em Jesus Cristo para sempre".

 

 

A ideia mais original de Inácio é a de que a Encarnação foi a manifestação de Deus para revelar uma nova humanidade. Antes de Cristo, o mundo estava sob o poder do demônio e da morte. Cristo trouxe vida e imortalidade.

 


Tanto nos escritos joaninos quanto nos de Inácio, salvação é vida, no sentido de transformação da mortalidade pecaminosa em imortalidade bem-aventurada. As raízes dessa ideia estão no ensino de Paulo. Através das escolas da Síria e da Ásia Menor, foi esse o conceito de salvação que veio a predominar na Igreja de língua grega. E era uma concepção que punha ênfase necessariamente na pessoa de Cristo e na encarnação. O conceito latino, como veremos, resumia-se na afirmativa de que a salvação consiste no estabelecimento de relações juntas com Deus e no perdão de pecados - idéia essa cujos antecedentes se encontram também no pensamento paulino. Esta segunda tendência necessariamente dava ênfase maior à graça divina, à morte de Cristo e à reconciliação. Não se trata, bem se vê, da concepção antinômicas. No entanto, tais diferenças de ênfase devem-se, em última análise, o contraste no desenvolvimento teológico posterior enter o Ocidente e o Oriente.

 

 

por Israel Sarlo