23. abr, 2014

PARTE 21 – CRISTIANISMO GENTÍLICO DO SÉCULO II

 

A BÍBLIA E SUAS ESCOLAS RELIGIOSAS E FILOSÓFICAS

 

 

 

Por volta do ano 100, o cristianismo estava fortemente representado na Ásia Menor, na Síria, na Macedônia, na Grécia, em Roma e, provavelmente, também no Egito (embora não dispomos de dados seguros com respeito à sua introdução neste último país). Espalhou-se muito pouco pela porção ocidental do império - se é que até lá chegou. Mais do que qualquer outra região, a Ásia Menor era o lugar onde o cristianismo mais extensamente havia penetrado. Entre 111 a 113 aproximadamente, Plínio, governador da Bitínia escrevia à Trajano que a religião de Cristo estava afetando o velho culto do templo. Dotado de forte espírito missionário, espalhava-se constantemente.

 

 

O cristianismo comum, porém, estava longe de representar - ou mesmo compreender - a elevada teologia de Paulo ou da literatura joanina. Seu pensamento restringia-se a uma esfera muito mais limitada. Profundamente leal a Cristo, entendia-o primordialmente como revelador divino do conhecimento do verdadeiro Deus e arauto de uma "nova lei" de moralidade simples, elevada e severa. Essa atitude dos chamados "Pais Apostólicos", com exceção de Inácio, cujo pensamento já discutimos (material PARTE 20).

 


Esses escritores cristãos receberam o cognome de "Pais Apostólicos" por ter-se acreditado durante muito tempo - erroneamente - na sua qualidade de discípulos diretos dos apóstolos. Entre eles contam-se: Clemente de Roma (93-97 aproximadamente), Inácio de Antioquia (110-117 aproximadamente), Policarpo de Esmirna (110-117 aproximadamente), Hermes de Roma (100-140 aproximadamente), o autor que escreveu com o nome de Barnabé, possivelmente em Alexandria (131-170 aproximadamente). A essa literatura deve ser acrescido o Ensino dos Doze Apóstolos (130-160 aproximadamente, retratando, porém, condições muito primitivas). A Epístola a Diogneto, anônima, não raro incluída entre os escritos dos Pais Apostólicos, é provavelmente posterior a esse período.

 


Os cristãos consideravam-se povo separado, nova raça, verdadeiro Israel, cuja cidadania não era mais a do Império Romano, embora continuassem a orar por sua prosperidade e pela do seu imperador, mas sim a da Jerusalém celestial. Eles constituem a Igreja, "fundada antes que o sol e a lua", "por causa da qual foi fundado o mundo". O conceito de Igreja não se equacionava primordialmente com a noção de um conjunto de cristãos na terra, mas com o de cidadania celestial que se estendia à terra, que compreende no seu âmbito as diversas comunidades cristãs. A essa Igreja o discípulo é admitido mediante o batismo. Ela está edificada sobre as águas!. O batismo subtende crença prévia na verdade da mensagem cristã, disposição de viver a vida cristã, e arrependimento. Os ofícios eram celebrados no domingo e, provavelmente, também em outros dias. Eram de dois tipos, desde os tempos dos apóstolos: reuniões para leitura das Escrituras, pregação, hinos e orações, e uma refeição comunitária à noite, associada à Ceia do Senhor. Ao tempo em que Justino Mártir escreveu uma Apologia, em Roma (153), a refeição comunitária tinha desaparecido e a Ceia tinha sido unida à reunião de pregação, na forma de sacramento final. A Ceia era a ocasião em que se faziam ofertas para os necessitados. As primeiras fórmulas litúrgicas datam de antes do fim do século I.

 

por Israel Sarlo