29. abr, 2014

PARTE 24 – A IGREJA CRISTÃ SE ORGANIZA (I)

 

A BÍBLIA E SUAS ESCOLAS RELIGIOSAS E FILOSÓFICAS


Era inevitável, contudo, que surgissem abusos da confiança nos dons carismáticos presentes nas primitivas congregações. O Ensino dos Doze Apóstolos demonstra que logo apareceram homens ambiciosos e fraudulentos, pretensamente dirigidos por Deus, que causavam danos às igrejas. Tornava-se necessário encontrar meios para estabelecer a diferença entre verdeiros e falsos. No Ensino e em Hermes, o critério era o caráter. Em 1ª João 4:1-4, a ortodoxia no ensino. Os profetas continuaram a existir por muito tempo. Encontram-se em Roma, mesmo no tempo de Hermes (100-1400) para não falar naqueles que a igreja declarou heréticos, tais como Montano e seus seguidores, de data ainda posterior. Era natural, portanto, que se introduzissem modificações nesse tipo tão incerto de direção. Quando de sua mensagem de despedida, Paulo chamou a Mileto os "anciãos" (presbyteroi) da igreja de Éfeso, exortando-os a que atendessem "por vós e por todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo vos constituiu bispos" (episkopoi), isto é, supervisores (At. 20:17-29).

 

 

 

Tais homens eram, em certo sentido, carismáticos. Tinham sido feitos bispos por obra do Espírito Santo. Mas eram recipientes de um carisma que fazia deles um grupo definido, com deveres específicos na congregação. Numa de suas últimas cartas, Paulo fala nos "bispos e diáconos" da igreja de Filipos (1:1). É evidente que estamos, neste caso, em presença de um estágio mais avançado do que o que transparece nas caras aos coríntios, mesmo que se afirme que a frase da carta aos filipenses se revê exclusivamente ao desempenho de certas funções ("os que supervisionam e os que servem"). Os dons podem ser carismáticos, mas os recipientes começam a ser ocupantes de um cargo oficial permanente. Não sabemos ao certo a razão porque tais cargos vieram a existir, mas não seria inexato afirmar que se prenda à necessidade da boa ordem e da adoração, e ao exemplo da sinagoga. Em certos lugares, é certo que a caus está na ausência de profetas e mestres que dirigissem a vida de adoração de adoração e liderassem a congregação. No Didaquê lê-se a seguinte ordem: "Escolhei para vos, portanto, bispos e diáconos dignos do Senhor, homens mansos, indiferentes ao dinheiro, verazes e provados. Porque também eles administram o ofício dos profetas e doutores" (15).

 

 

 

Em Filipos, em Éfeso e no Didaquê, a menção aos "bispos" é feita sempre no plural. Era também o que acontecia em Roma e Corinto, ao tempo em que Clemente de Roma escreveu (93-97). Clemente também faz referência aos "presbíteros instituídos" contra os quais a igreja de Corinto se havia rebelado (54) e àqueles que, embora sendo presbíteros, "ofereciam as oblações do episcopado" (44). Policarpo de Esmirna, escreveu aos filipenses em (110-117), menciona somente os presbíteros e diáconos e seus respectivos deveres. Hermes (110-140) parece dar a entender que no seu temo ainda persistia em Roma o cargo na forma de colegiado. São os "anciãos (presbíteros) que presidem à igreja". Menciona tão somente os deveres de "diáconos" e "bispos".

 

por Israel Sarlo