29. abr, 2014

PARTE 26 – O CRISTIANISMO E A POLÍTICA ROMANA

 

A BÍBLIA E SUAS ESCOLAS RELIGIOSAS E FILOSÓFICAS

 

No começo, o cristianismo era considerado pelos romanos um ramo do judaísmo, o qual contava com proteção leal (At. 18:14-16). A hostilidade dos próprios judeus, no entanto, veio a chamar a atenção para as distinções entre eles existentes. Ao tempo da perseguição de Nero em Roma (64), elas já eram flagrantes. Nessa ocasião, o crime imputado às vítimas romanas não era o de serem cristãos, mas sim incendiários. A impopularidade que havia entre a multidão os tornavam objetos de suspeição.

 

 

Na época em que foi escrita 1ª Pedro (aproximadamente 90), o mero fato de declarar-se cristão tornou motivo para punição (1ª Pd. 4:16). Não é possível precisar quando "o nome" passou a se tornar imputação suficiente para processo criminal. A resposta enviada por Trajano a Plínio, governador da Bitínia (111-113), pressupõe que ser cristão já era considerado crime. Partindo de tal premissa, o imperador ordenou que fosse observado o que, do seu ponto de vista, se considerava procedimento tolerante. Os cristãos não deveriam ser caçados e os que se dispusessem a abjurar da fé, oferecendo sacrifícios, deviam ser absolvidos. Só nos casos de persistência é que deviam ser punidos. Do ponto de vista da fiel profissão de fé cristã, essa era uma prova que só podia ser enfrentada com o martírio.

 

 

Os sucessores imediatos de Trajano - Adriano (117-138). Este, porém, tratou o cristianismo em geral com a tolerância que provém da indiferença. Considerava sempre ilegal, e com severas penalidades e ameaçava a existência, a profissão de fé cristã acarretava perigo constante aos seus seguidores. No entanto, o número concerto de mártires durante esse período parece ter sido relativamentre pequeno, comparado com os dos séculos III e IV. Nenhuma perseguição de caráter geral foi movida antes de 250.

 

 


As acusações levantadas contra os cristãos eram as de ateísmo e anarquia. O fato de rejeitarem os antigos deuses parecia ateísmo; o de recusarem-se a participar no culto ao imperador assemelhava-se a traição. A credulidade popular, facilitada pelo fato de os cristãos se manterem afastados da sociedade civil comum, atribuía-lhes crimes tão revoltantes quanto absurdos.

 

 

A acusação frequente de canibalismo contra eles levantada serve-se a uma falta de compreensão da doutrina cristã da presença de Cristo na "Santa Ceia", e a de licenciosidade, ao fato de esse ofício ser celebrado secretamente, à noite. Muitas das perseguições movidas pelo governo contra o cristianismo eram incitadas por levantes populares contra os cristãos. Foi o que aconteceu em Esmirna, quando Policarpo sofreu o martírio, em 156. A feroz perseguição em Lião e Vienne, em 177, foi ocasionada por um boicote baseado em acusações de imoralidade. Não é de estranhar, portanto, que a maioria dos processos criminais contra os cristãos, nesse período, parecem ter sido movidos pelo poder geral da polícia que os magistrados tinham, a fim de reprimir desordens, mais do que segundo procedimento judicial formal diante de uma acusação específica do crime de ser cristão. Encontram ambos os casos. A melhor resposta que os cristãos davam a todas essas acusações consubstanciava-se na constância heróica de sua lealdade à Cristo, e no alto grau de comportamento moral, comparado com o que prevalecia na sociedade que viviam.

 

 


Seria bom um esclarecimento: Estamos falando, neste capítulo, da igreja que havia chegado em Roma sem nenhuma ajuda doutrinária. Mas chegou com toda confusão da influência judaica. Como vimos, os romanos não aceitavam a não fusão do cristianismo com seus deuses e suas doutrinas pagãs. Foi nesta confusão que, mais tarde, Constantino resolve oficializar o cristianismo em Roma como se confecciona uma colcha de retalhos. Resolveram criar no cristianismo imagens dos personagens bíblicos do NT e assim chegamos a deturpação da essência do valor de fé cristã, sendo bem mais tarde, levantada por Martin Lutero.

 

 

por Israel Sarlo