2. mai, 2014

PARTE 28 – GNOSTICISMO

 

A BÍBLIA E SUAS ESCOLAS RELIGIOSAS E FILOSÓFICAS


O GNOSTICISMO propriamente dito era algo de alcance muito maior. Chegou ao ápice de sua influência entre 135 e 160 d.C, aproximadamente, embora continuasse a existir muito depois dessa data. Chegou a representar séria ameaça à subsistência da fé cristã histórica e, por isso, suscitou a crise mais grave porque passou a Igreja cristã desde os dias da luta paulina por liberdade em relação à Lei. Sua expansão e consequentemente perigo foram possibilitados pelo estado da Igreja nos seus primórdios, relativamentre esganzarada e doutrinariamente indefinida. A Igreja conseguiu vencer o perigo e, ao fazê-lo, organizou-se de maneira mais firme e aprimorou um credo mais claramente definido - contrastando com a situação mais espontânea e carismática do cristianismo primitivo.


O GNOSTICISMO afirmava basear-se no "conhecimento" (gnôsis), mas não no sentido em que usualmente entendemos essa palavra. O seu tipo de conhecimento era sempre uma sabedoria mística, sobrenatural, mediante a qual os iniciados eram levados a um verdadeiro entendimento do universo e salvos deste mundo mau da matéria. Na sua base estava uma doutrina da salvação. Nesse sentido, assemelhava-se às religiões de mistério. Sua característica mais proeminente, porém, era o sincretismo. Apropriava-se de muitos elementos provindos de fontes as mais variadas e assumia formas diversas. Impossível se torna, por isso, falar de um único tipo de GNOSTICISMO. No geral, era místico, mágico ou filosófico, segundo os elementos predominantes nos eu sincretismo. De origens pré-cristã, já existia antes de o cristianismo se manifestar. Havia os tipos judaicos e pagão. Está presente na literatura hermética do Egito. Continha elementos provenientes da astrologia das antigas concepções religiosas babilônicas. Apregoava uma visão dualista do universo, de origem persa e uma doutrina de emanações de Deus no "pleroma", ou esfera do espírito, provavelmente de raiz egípcia.

 

 

O conceito provavelmente mais fundamental - o caráter totalmente mau do mundo dos fenômenos - vinha da combinação da teoria platônica do contraste entre o mundo espiritual e real das "ideias", e o mundo visível dos fenômenos, interpretada nos termos do dualismo persa. O primeiro seria bom, e a ele o homem devia esforçar-se por retornar. O segundo, totalmente mau, verdadeira prisão para o homem. O mundo da matéria é mau. Seu criador e governador, por conseguinte, não é o Deus sublime e bom, mas sim um ser inferior e imperfeito: o demiurgo. Para salvar-se, o homem tem de ser libertado da prisão do mundo visível e seus poderes planetários. O instrumento de libertação é o "conhecimento" (gnôsis), uma iluminação espiritual mística dos iniciados, que os põe em comunhão com o mundo real das realidades espirituais.


Note: "conhecimento" místico dos iniciados religiosos com suas filosofias e etc. Voltaremos a este assunto em nossa próxima aula - até lá.

 

 

 

por Israel Sarlo