7. mai, 2014

PARTE 31 – REFORMADORES

A BÍBLIA E SUAS ESCOLAS RELIGIOSAS E FILOSÓFICAS


Como o primeiro dos reformadores da Igreja, Marcião merece atenção especial.

 

 

Abastado armador, nascido em Sinope, na Ásia Menor, transferiu-se para Roma destinando às suas obras de benemerência uma quantia equivalente a 20.000,00 aproximadamente.

 

 

Angustiado pelo problema do mal e do sofrimento, veio a adotar a idéia de um dualismo radical que contrastava o deus deste mundo com o Deus de misericórdia revelado em Jesus. Sob a influência do Cerdo, gnóstico de Roma, parece ter modificado sua posição, passando a considerar o deus-criador do Antigo Testamento não mais tontamente mal, mas fraco.

 

 

Marcião atacava toda forma de legalismo e judaísmo, afirmando que Paulo era o único apóstolo que tinha realmente entendido o Evangelho. Todos os outros tinham caído nos erros do judaísmo. O Deus do AT é um Deus justo, no sentido do "olho por olho, dente por dente". Esse Deus criou o mundo e deu a lei judaica. Cristo, manifestação docética, revelou bom e misericordioso até então desconhecido. O Deus do AT se opusera a ele, mas em Cristo destruíra-se a autoridade da lei judaica e o "Deus Justo" tornou-se injusto por causa de sua hostilidade injustificada àquele que revelou o "Deus Bom".

 

 

Por conseguinte, o AT e seu Deus tem de ser rejeitados pelos cristãos. Cristo proclamou um Evangelho de amor e misericórdia, e o único conhecimento verdadeiro de Deus é o que provém de Cristo. O conceito de vida cristã esposado por Marcião seguia oscilações extraídas de seu pensamento gnóstico. Sendo mau o mundo material, é necessário adotar a vida ascética. Comer carnes e a prática de atos sexuais eram coisas que só agradavam ao desígnio do deus-criador.

 

 

por Israel Sarlo