15. mai, 2014

PARTE 33 - O MONTANISMO

 

A BÍBLIA E SUAS ESCOLAS RELIGIOSAS E FILOSÓFICAS

 

Ao contrário do gnosticismo, o montanismo foi um movimento de origem claramente cristã. Na maioria das igrejas do século II, a primitiva esperança na próxima volta do Cristo desapareceria. A consciência da inspiração constante do Espírito, característica da Igreja apostólica, praticamente extinguiu-se. Com o declínio do sentido da ação constante e imediata do Espírito, ia crescendo a ênfase na sua importância como agente da revelação. Foi o Espírito quem inspirou a profecia do Antigo Testamento (A.T). Foi ele quem guiou os escritores do Novo Testamento (N.T). Para o pensamento cristão do começo do século II, havia uma diferenciação entre o Espírito Santo e Cristo, mas eram ambos considerados Deus. Isso é evidente na fórmula batismal trinitária (Mt. 28:19), que, a essa época, já estava substituindo as outras fórmulas mais antigas, em nome de Cristo (At. 2:28).

 

Ao fim do século I e começo do século II, as fórmulas trinitárias já eram de uso frequente. O Livro Biográfico de João afirmava que Cristo prometeu que o Espírito Santo viria aos discípulos: "Quando vier o Consolador, que eu vos enviarei da parte do Pai, o Espírito de Verdade, que dele procede, essa dará testemunho de mim" (Jo. 15:26). O século II estava convicto, portanto, não só de que o Espírito Santo estava vinculado de forma peculiar a Deus Pai e a Cristo, mas de que Cristo prometeu que, no futuro, o Espírito viria em medida mais abundante.

 

O montanismo representava exatamente a noção da dispensação especial do Espírito Santo, combinada com uma nova manifestação do entusiasmo profético primitivo e com a convicção de que o fim dos tempos estava próximo. Em grande parte, representava também uma reação contra as tendências seculares que já se faziam sentir na Igreja. Montano, que deu nome ao movimento, provinha de Ardabau, região próxima à Frígia, na Ásia Menor, de há muito notável pela religião de tipo extático nela existente. Tradição registrada por Jerônimo afirmava que, antes de converter-se, Montano havia sido sacerdote de Cibele. Por volta de 156 d.C, proclamou-se instrumento passivo, mediante o qual falava o Espírito Santo. A ele juntaram-se logo duas profetisas, Priscila e Maximilia. Proclamando-se porta-vozes do Espírito, afirmavam então que estava próximo o fim do mundo, e prestes a ser estabelecida, na Frígia, a Nova Jerusalém, para onde se dirigiam os fiéis. Como preparo para a próxima consumação, deveriam ser praticados o ascetismos mais severo, o celibato, jejuns e abstinência de carne. Essa atitude vigorosa encontrou resposta, como protesto contra o crescente mundanismo que invadia a Igreja em geral. Nisso residia a maior atração que o montanismo exercia sobre muitos.


Rapidamente o movimento atingiu proporções consideráveis. Convocados pelos bispos da Ásia Menor, que viam ameaçada sua autoridade, houve um ou mais sínodos, pouco depois de 160 d.C, os primeiros da história da Igreja. Por eles o montanismo foi condenado.

 

Não foi fácil deter o progresso do movimento, mesmo a despeito da morte do último dos seus profetas originais, a saber, Maxililia, em 179. Ainda depois de 170 o movimento fazia notar sua presenta em Roma, e durante muitos anos a Igreja nessa cidade foi perturbada por ele, com maior ou menor intensidade. Em Cartago, conseguiu converter Tertuliano, por volta de 200 d.C. Atraído por suas exigências ascéticas, Tertuliano tornou-se o montanista mais eminente. Embora gradualmente banido da Igreja, o montanismo continuou a existir no Oriente, muito tempo depois de o Cristianismo ter sido aceito pelo governo imperial. Em Cartago, os seguidores de Tertuliano subsistiram até o tempo de Agostinho. As exigências ascéticas do montanismo representavam uma tendência muito generalizada. Mais tarde um ascetismo tão rígido quanto o ensinado por Montano viria encontrar acolhida na Igreja, através do monaquismo.

 

 

por Israel Sarlo.