19. mai, 2014

PARTE 34 – A IGREJA CATÓLICA

A BÍBLIA E SUAS ESCOLAS RELIGIOSAS E FILOSÓFICAS

 

 

Embora extremamente perigosos, nem o gnosticismo, nem o montanismo, jamais conseguiram conquistar a adesão da maioria dos cristãos. A maior parte da Igreja manteve-se fiel ao cristianismo histórico. Na última parte do século II, dava-se já o nome de Igreja "CATÓLICA". A palavra "católica" em relação à Igreja foi usada pela primeira vez por Inácio, que a empregou no sentido platônico da "universal", em contraste com particular. A seguir, encontra-se na carta à Igreja de Esmirna, na descrição do martírio de Policarpo (156 d.C). Pouco a pouco se tornou comum o uso do vocábulo como adjetivo de natureza técnica e descritiva, quase sinônimo de "ortodoxo". Assim a Igreja fortemente consolidada, que saiu ilesa das crises gnósticas e montanistas, passou a ser usualmente descrita como "CATÓLICA".

 

 

As características distintivas dessa Igreja Católica desenvolveram-se no período que medeia entre 160 e 190. As congregações, atér então independentes, agora se ligavam numa união efetiva. O poder dos bispos foi grandemente fortalecido. Reconheceu-se uma coleção de escritos autorizados do Novo Testamento. Formulou-se um credo. O cristianismo, antes organizado de maneria um tanto indefinida, tornou-se então um corpo firmemente coeso, com dirigentes oficialmente reconhecidos e capazes, não só de definir sua fé, mas também de excluir da sua comunhão todos os que se recusassem a aceitar os credos ou os dirigentes. Eis como um recente estudioso alemão resume a mudança ocorrida: "Pôr volta do ano 50, pertencia à Igreja quem tivesse recebido o batismo e o Espírito Santo e atribuísse a Jesus o nome de Senhor. Já por volta de 180, membros da Igreja era aquele que aceitasse a regra de fé (credo) o cânon do NT e a autoridade dos bispos"...

 

Até certo ponto, o início dessa grande mudança já é observável antes das crises gnóstica e montanista. Mas foram essas lutas que a levaram a efeito. A resposta típica da igreja Católica aos gnósticos encontra-se na argumentação de Irineu de Lião. Escrevendo contra o gnosticismo, mas ou menos em 187, Irineu afirmava que os apóstolos não haviam pregado até terem adquirido "conhecimento perfeito" do Evangelho. Essa pregação eles a registraram nos Livros Biográficos. Mateus e João foram escritos pelos próprios apóstolos. Marcos reproduzia a mensagem de Pedro; Lucas a de Paulo. Em nenhum deles se encontra nada de gnóstico. Mas os gnósticos podem responder que, além desse ensino apostólico público nos Livros Biográficos, houve uma instrução de viva voz, uma exposição de "sabedoria entre os perfeitos" (1ª Co 2:6), da qual o gnosticismo era o herdeiro. Irineu negava essa afirmação. E argumentava que, tivesse havido tal doutrinação privada, os apóstolos a teriam confiado àqueles que, dentre todos os outros, eles haviam escolhido como sucessores seus no governo das igrejas.

 

 

Nessas igrejas fundadas pelos apóstolos, o ensino apostólico tinha sido preservado em toda sua inteireza, e sua transmissão tinha sido custodiada pela sucessão ordenada dos seus bispos. "Ide, por tanto a Roma - diria Irineu - ou a Esmirna, ou a Éfeso, e procurai saber o que lá é ensinado, e vereis que nada há que se assemelhe ao gnosticismo". Todas as igrejas devem concordar com a de Roma, pois nesta a tradição apostólica foi fielmente preservado, tal como em touras igrejas apostólicas.

 

 

Continuaremos na próxima aula.

 

 

por Israel Sarlo