23. mai, 2014

PARTE 37 – A IGREJA CATÓLICA (continuação...)

A BÍBLIA E SUAS ESCOLAS RELIGIOSAS E FILOSÓFICAS

 

 

Cerca do ano 200, a Igreja na região ocidental do império despunha, portanto, de uma coleção autorizada de livros do Novo Testamento, em linhas gerais igual à nossa, à qual podia recorrer. O Oriente não fico muito atrás. A formação do cânon foi, na essência, um processo de seleção de certos documentos que componham um grande conjunto de literatura cristã, seleção essa feita não por um concílio originalmente, mas sim pela força da opinião cristã. O critério que a isso presidiu era o de que os livros reconhecidos fossem considerados escritos por um apóstolo, ou por um discípulo imediato de um apostolo, representando assim o ensino apostólico.

 


Dessa maneira, da luta contra o gnosticismo e o montanismo, surgiu a IGREJA CATÓLICA, com sua forte organização episcopal, seus credos e seu cânon oficial. Era diferente em muito da IGREJA APOSTÓLICA, mas conseguiu preservar o cristianismo histórico e fazer com que lhe fosse possível atravessar a tremenda crise. Difícil é supor que uma organização menos rígida do que a que se desenvolveu no século II pudesse ter obtido tal sucesso.

 

 

A IMPORTÂNCIA CRESCENTE DE ROMA:
Desde o tempo de Paulo a Igreja romana ocupava posição de proeminência. A ela o apóstolo escreveu sua carta mais importante (Carta aos Romanos). Em Roma morreu Paulo. A Igreja sofreu a mais severa das primeiras perseguições - a de NERO - e sobreviveu vigorosa. Situada na capital do império, logo adquiriu consciência de força e autoridade, indubitavelmente de se tornar, ao que parece por volta do ano 100, a maior congregação do cristianismo.

 

 

Mesmo antes do fim do século I, Clemente, escrevendo anonimamente em nome de toda a congregação romana (93-97), falava em nome de quem esperava ser obedecido. Se bem que fraternal, o tom da carta era o de quem se considerava irmão maior. A influência foi aumentada ainda mais em virtude da bem conhecida generosidade da congregação romana. Inácio referiu-se a ela como "aquela que preside em amor". A destruição de Jerusalém, na segunda guerra judaica (135), deu fim a toda possibilidade de liderança a que o cristianismo ali sediado pudesse almejar. A resistência oferecida ao gnosticismo e ao montanismo pela Igreja romana fortaleceu-a, e ela colheu frutos abundantes dessa luta.

 

 

Foi em Roma que se formulou o credo e se formou o cânon. Acima de tudo, foi favorecida pelo fato de nos opositores do gnosticismo recorrerem à tradição das igrejas apostólicas, pois Roma era a única igreja da região ocidental do império com a qual os apóstolos tinham tido alguma coisa que ver.

 

 

Escrevendo mais ou menos em 185, Irineu de Lião representava o sentimento predominante no Ocidente, quando não só atribuiu a Pedro e Paulo a fundação da Igreja romana, mas também declara que "é necessário que todas as igrejas estejam acorde com esta igreja". O que Irineu tinha em mente era a liderança na preservação da fé apostólica, e não a supremacia em matéria de jurisdição. Mas, com a generalização desse sentimento, estava aberta a porta para uma afirmação mais ampla da autoridade romana.

 

 

O desenvolvimento do episcopado monárquico em Roma não foi rápido, embora já estivesse implícito na posição peculiar ocupada por Clemente, como uma espécie de ministro de relações exteriores daquela Igreja. Não obstante, a prominência do bispo romano cresceu rapidamente quando da luta gnóstica, e com esse crescimento veio a primeira afirmação extensiva da autoridade do bispo de Roma nos negócios da Igreja em geral.

 

 

Continuamos na próxima aula.

 

 

por Israel Sarlo