23. mai, 2014

PARTE 38 – DISPUTA POR NORMAS E COSTUMES

A BÍBLIA E SUAS ESCOLAS RELIGIOSAS E FILOSÓFICAS

 

"PARI PASSU" com o aumento da influência de Roma, dava-se o declínio da Ásia Menor. No começo do século II, esta, e a região adjacente, a Síria, eram as áreas do império mais intensamente cristianizadas. O mesmo poderia dizer no fim desse século. Éfeso e Antioquia tinham sido - e ainda eram - grandes centros cristãos. A Ásia Menor tinha resistido ao gnosticismo, mas fora dividida pelo montanismo e por outras controvérsias, embora os montanistas tivessem sido rechaçados. No entanto, há motivos para que se afirme que tais lutas haviam deixado marcas profundas na unidade das forças dos seu cristianismo.

 

A disputa entre a Ásia Menor e Roma foi ocasionada pela discussão a respeito da data da Páscoa. Embora se possa supor que a Páscoa tenha sido observada desde o começo da história da Igreja, o primeiro registro documentado de sua celebração vincula-se à visita de Policarpo, bispo de Esmirna, a Aniceto, bispo de Roma, em 154 ou 155. Nessa época, o costume da Ásia Menor - provavelmente mais antigo - era observar a Páscoa com uma vigília, terminando com a celebração da Ceia do Senhor durante a noite do dia '4 do mês de Nisã, tal como a Páscoa judaica, independente do dia da semana em que ocorresse. O costume de Roma e de algumas regiões do Oriente era comemorar a festa da Páscoa sempre num domingo. O problema, portanto, resumia-se em determinar qual serviria ser a norma: o dia da semana, ou o do mês.

 

Policarpo e Aniceto não conseguiram chegar a um acordo, mas separaram-se como bons amigos, mantendo-se cada um fiel ao seu próprio costume. O problema tornou-se mais complexo por causa de uma discussão surgida, por volta de 167, em Laodiceia, na própria Ásia Menor, com respeito à natureza da celebração no dia 14 de Nisã. Alguns afirmavam que Cristo havia morrido nesse dia, como parece dizer o João; outras asseveravam que a morte ocorrera no dia 15, como dizem os outros Livros Biográficos. Os componentes deste último grupo, por conseguinte, consideravam a comemoração do dia 14 de Nisão como uma continuação cristão da Páscoa judaica.

 

No ano 190, mais ou menos, o problema tornou-se tão agudo que em Roma, na Palestina e outros lugares reuniram-se sínodos, os quais decidiram em favor do costume romano. Liderados por Polícrates, o bispo de Éfeso, as igrejas da Ásia Menor negaram-se a concordar. Diante disso, Vítor, bispo de Roma (189-198), excomungou as congregações rebeldes. Esse ato prepotente levantou muitos protestos, notadamente de Irineu de Lião, mas foi uma afirmação marcante da autoridade de Roma.

 

Essas acirradas controvérsias causaram muito dano à Ásia Menor. Desde então extinguia-se qualquer possibilidade de que Éfeso viesse a realizar com Roma. O colapso da liderança cristã judaica, a aparente ausência de homens eminentes em Antioquia durante o século II e o declínio da influência da Ásia Menor fizeram de Roma, por volta do ano 200, o centro mais eminente e influente do cristianismo, posição essa de que os bispos da Igreja em Roma tiveram a disposição e a capacidade de fazer pleno uso. Nem o aumento da importância de Alexandria e Cartago na vida e no pensamento cristão, durante o século III, foram capazes de subtrair a Roma o seu papel de líder, já que essa importância era muito mais recente do que a de que desfrutava a congregação sediada na capital do império.

 

Israel Sarlo