27. mai, 2014

PARTE 39 – IRINEU

A BÍBLIA E SUAS ESCOLAS RELIGIOSAS E FILOSÓFICAS.

 

O primeiro líder teológico que alcançou distinção na incipiente Igreja Católica foi Irineu. Já mencionamos sua argumentação em defesa do cristianismo tradicional, contra o ataque gnóstico.

 

Nascido na Ásia Menor, foi educado em Esmirna, onde conheceu e ouviu Policarpo. Os estudiosos têm fixado a data do seu nascimento entre 115 e 142 aproximadamente, variando segundo a influência que se supõe tenha ele tido sobre a tradição referente à autoria do quarto Livro Biográfico. Seria provavelmente mais exata uma data que se aproximasse do "terminus ad quem" acima citado.

 

Da Ásia Menor transferiu-se para Lião, no território da França atual, onde se tornou presbítero. A grande perseguição havia nessa cidade, em 177, ocorreu, afortunadamente, quando ele se encontrava em Roma, em comprimento a uma honrosa missão. Quando de seu retorno, foi escolhido bispo de Lião, sucedendo ao mártir Potino. Ocupou esse cargo até sua morte, mais ou menos em 200. Por volta de 185, escreveu sua obra principal - CONTRA AS HERESIAS - com a intenção principal de refutar as várias escolas gnósticas, revelando, porém, incidentalmente, seu próprio pensamento teológico.

 

Educado na tradição da Ásia Menor, mas vivendo grande parte de sua vida na Galácia, Irineu tornou-se um elo de ligação não só entre porções distantes do império, mas também entre a antiga teologia da literatura joanina e inaciana, e a nova maneira de apresentar a fé que estava sendo introduzida pelos apologistas e pelo movimento "católico" dos seus próprios dias.

 

Homem de espírito profundamente religioso, seu interesse principal era a salvação. Na sua explanação, desenvolveu os conceitos paulinos e inaciano de Cristo como o novo homem, o renovador da humanidade, o segundo Adão. Partindo da premissa de que a criação é boa, Irineu afirma que Deus criou o primeiro Adão com a capacidade de conquistar a imortalidade. A concessão desse dom dependia de sua obediência. Tanto a bondade como a imortalidade, porém, foram postas a perder pelo pecado de Adão. Aquilo que o homem perdeu em Adão é restaurado em Cristo, o 'Logos' encarnado, que agora vem completar a obra interrompida. Em si mesmo, o Cristo "recapitula" os estágios da queda de Adão, invertendo o processo, e, por assim dizer, subindo, degrau por degrau, a escada pela qual desceu Adão. "Demonstrei que o Filho de Deus não começou a existir então (isto é, no nascimento de Jesus), estando desde o princípio com o Pai; mas que, ao encarnar e fazer-se homem, começou de nova a longa sucessão de seres humanos, e, em forma concisa e compreensiva, nos proporcionou a salvação, de modo tal que aquilo que tínhamos perdido em Adão - a saber, o existir segundo a imagem e semelhança de Deus - pudéssemos recuperar em Cristo Jesus".

 

Irineu resume numa frase imponente a obra de Cristo assim descrita: nós seguimos ao "único Mestre verdadeiro e firme, o Verbo de Deus, nosso Senhor Jesus Cristo, o qual, mediante o seu amor transcendente, se torou o que nós somos, a fim de que nos pudesse transformar naquilo que ele mesmo é". Cristo é também a plena revelação de Deus.

 

Seguindo o ensino da Ásia Menor e de Justino, Irineu conceitua nossa união com Cristo em termos com certo sentido físico, por meio da Ceia do Senhor. À sua teoria com respeito ao Cristo como novo cabeça da humanidade, Irineu aditava a sugestão de que a mãe de Cristo era a segunda Eva. "O nó da desobediência de Eva foi desatado pela obediência de Maria. Pois o que a Virgem Eva havia atado por sua desobediência, a Virgem Maria o libertou por sua fé". Nessa curiosa referência está um dos primeiros indícios da exaltação da Virgem, que viria a ocupar lugar de tanto destaque na história cristã.

 

Em certo sentido, mesmo para o seu tempo, Irineu era homem antiquado. A crença na pronta volta de Cristo tinha estado a desaparecer, e a controvérsia com o montanismo a fizera extinguir-se quais que por completo. Em Irineu, porém, ela continuava a brilhar com toda a intensidade. Ele aguardava ansioso o dia em que a terra havia de ser maravilhosamente renovada. Para Irineu, o NT é Escritura Sagrada em sentido tão completo quanto o era o Antigo.

 

Israel Sarlo