5. jun, 2014

PARTE 44 – BISPO CIPRIANO

A BÍBLIA E SUAS ESCOLAS RELIGIOSAS E FILOSÓFICAS.

 

Em muitos sentidos Cipriano foi o herdeiro intelectual de Tertuliano, a quem chamava de mestre. Nasceu provavelmente em Cartago, cerca de 200, e lá passou toda a sua vida. Abastado e culto, distinguiu-se como professor de retórica. Por volta de 246, converteu-se à fé cristã, sendo escolhido bispo de Cartago dois ou três anos após. Nesse posto demonstrou possuir grande capacidade administrativa, muito bom senso prático e bondade, sem ser, no entanto, dotado de gênio, que caracterizava Tertuliano. Durante a perseguição de 250, conseguiu safar-se apelando para a fuga, mas enfrentou heroicamente a de 258 e sofreu o martírio, sendo decapitado. Poucos líderes da igreja primitiva receberam maior consagração das gerações subsequentes.

 

No ensino de Cipriano, as tendências presentes no desenvolvimento da Igreja Católica desabrocharam em toda a plenitude. A Igreja é a única comunidade de cristãos visível e ortodoxa.

 

"Ha um só Deus e Cristo é um só, e há uma só Igreja e uma só cátedra (episcopado) fundada sobre a rocha pela palavra".


"Seja quem for, ou o que for, quem não está na Igreja de Cristo não é cristão".


"Não pode ter a Deus por Pai quem não tem a Igreja como mãe". "Fora da Igreja não há salvação".


A Igreja fundamenta-se na unidade dos bispos, "de onde deveis saber o que bispo está na Igreja e a Igreja no bispo, e quem não estiver com o bispo não esta na Igreja".


"O episcopado é um todo único, e a porção de cada bispo tem é dada ao todo para a sua inteireza".

 

Esta última frase refere-se a uma controvérsia ainda hoje existente, sobre se Cipriano considerava todos os bispos participantes, em igual medida, de uma autoridade episcopal comum, que era possuída individualmente e por todos, ou se afirmava a superioridade do bispo de Roma. É certo que citava Mateus 16:18, 19. Considerava Pedro o bispo típico. Referia-se a Roma como "a Igreja principal", de onde se origina a unidade do sacerdócio. Para ele, Roma era claramente a igreja mais eminente em dignidade, mas isso não significava que estivesse disposto a admitir a autoridade do bispo de Roma sobre os outros, em matéria de jurisdição, ou a considerá-lo mais do que primeiro entre iguais (primus inter pares).

 

Voltaremos a fazer referência à importância de Cipriano, no desenvolvimento da doutrina de que a Ceia do Senhor é um sacrifício oferecido a Deus pelos sacerdotes. Sua concepção da vida cristã, como a de Tertuliano, era ascética. O martírio é comparado à semente que dá fruto a cento por um; o celibato voluntário, à que produz sessenta por um.

 

Israel Sarlo