7. jun, 2014

PARTE 46 – TEÓDOTO - "O Curtidor"

A BÍBLIA E SUAS ESCOLAS RELIGIOSAS E FILOSÓFICAS.

 

O primeiro monarquiano dinâmico de importância foi Teódoto, chamado "o curtidor", de Bizâncio. Homem de cultura, afirma-se ter sido discípulo dos alógoi, embora ao contrário destes, aceitasse o quarto Evangelho (João), até certo ponto.

 

Por volta de 190, transferiu-se para Roma, passando a ensinar que Jesus era um homem, nascido da Virgem, de vida santa, sobre quem desceu o Cristo divino (ou Espírito Santo), na ocasião do seu batismo. Alguns dos seguidores de Teódoto negavam a Jesus qualquer direito a chamar-se divino, mas outros afirmavam que ele havia se tornado divino, em certo sentido, na sua ressurreição. A proposito disso, vem-nos à mente a cristologia de Hermes.

 

Teódoto foi excomungado por Vítor, bispo de Roma (189-198). Sua obra foi continuada por Teódoto, "o cambista", e Asclepiodoro, originários, como seu mestre, do Oriente. Foram infrutíferos seus esforços nos sentido de fundar uma seita separada da Igreja Católica. A última tentativa de formulação de uma teologia semelhante a essa, em Roma, foi a de um certo Artêmon (230 ou 240-270), mas o monarquianismo dinâmico no Ocidente já agonizava. O movimento, contudo, representava indubitavelmente um dos mais antigos trios de pensamento cristológico existentes na Igreja Cristã.

 

O partido dos monarquianos dinâmicos foi mais forte e duradouro no Oriente. Seu mais famoso representante foi Paulo de Samósata, bispo de Antioquia, entre aproximadamente 260 e 272, muito capaz e politicamente hábil. Conceituava o Logos, que descrevia também como Filho de Deus, em termos de atributo impessoal de Pai. Esse Logos inspirou Moisés e os profetas. Jesus era um homem, considerado único por causa do seu nascimento virginal, cheio de poder de Deus, isto é, o Logos de Deus. Mediante essa inspiração interior, Jesus era o Deus, por amor, em vontade, mas não em substância. Essa união é de natureza moral, a indestrutível. Em virtude dela, Cristo ressurgiu dentre os mortos e recebeu uma espécie de divindade delegada.

 

Entre 264 e 269, três sínodos sucessivos examinaram as idéias e Paulo de Samósata, que acabou por ser excomungado pelo último deles. Manteve-se porém, no seu cargo até vir a ser deposto pelo Imperador Aureliano.

 

Israel Sarlo