17. jun, 2014

PARTE 52 – ESCOLA DE ALEXANDRIA (1ª aula)

A BÍBLIA E SUAS ESCOLAS RELIGIOSAS E FILOSÓFICAS.

 

Durante mais de seis séculos, Alexandria foi a segunda cidade do mundo antigo, só excedida a importância por Roma e, mais tarde, Constantinopla. Fundada por Alexandre Magno em 332 a.C., era antes de mais nada uma comunidade comercial e, como tal, atraía inúmeros gregos e judeus. Não menos notável era sua vida intelectual. Sua biblioteca era a mais famosa do império.

 

Alexandria era um verdadeiro ponto de encontro entre Oriente e o Ocidente. Ali a filosofia grega se cominava - ou rivalizava - com o judaísmo e muitos outros cultos orientais, ao mesmo tempo em que persistia a influência do pensamento do antigo Egito.

 

Era a cidade mais cosmopolitista do mundo antigo. Ali foi traduzido o Antigo Testamento para o grego e Fílon reinterpretou o judaísmo nos termos da filosofia helênica. Ali viria a surgir o neoplatonismo, no século III da nossa era. Nada se sabe a respeito da introdução do cristianismo em Alexandria ou no Egito em geral, mas deve ter-se dado muito cedo, pois, quando se rompe o véu do silêncio, vê-se que o cristianismo tinha ali raízes profundas.

 

O gnóstico Basílides ensinou em Alexandria durante o reinado de Adriano (117-138). Vários sistemas filosófico tinham nessa cidade suas "escolas", onde todos os interessados podiam obter instrução. Era natural que os mestres cristãos imitassem esse bom exemplo, embora a iniciativa nesse sentido pareça ter sido tomada independentemente das autoridades da Igreja Alexandrina.

 

Por volta de 185, existia em Alexandria uma famosa escola catequética, sob a liderança de um filósofo estoico convertido, Panteno. Não dispomos de dados para verificar se essa escola surgiu com esse pensador, nem qual era a sua própria posição teológica. Com Clemente de Alexandria (?-215 aproximadamente), discípulo e sucessor de Panteno, a escola de Alexandria começa a adquirir proeminência. O curso do desenvolvimento religioso de Alexandria foi evidentemente diverso da Ásia Menor e do Ocidente. Nestas duas últimas regiões, a luta contra o gnosticismo tinha gerado tal desconfiança para com a filosofia, que Tertuliano podia afirmar não haver nenhuma relação possível entre ela e o cristianismos. Essa luta tinha também dado grande força ao recurso da tradição apostólica, e solidificado a organização.

 

Em Alexandria, porém, essas características da igreja Católica não se haviam desenvolvido tão plenamente, e a filosofia não era considerada incompatível com o cristianismo, mas sim serva deste. Muito mais do que nos outros círculos ortodoxos, nesta cidade efetivou-se a união entre o cristianismo e o que de melhor havia na filosofia antiga, especialmente no platonismo e estoicismo. O resultado foi o surgimento de um gnosticismo cristão.

 

Clemente de Alexandria foi o representante típico desse movimento. Era, ao mesmo tempo, presbítero na igreja Alexandrina, servindo de elo de ligação entre a Igreja e a escola.

 

Israel Sarlo