19. jun, 2014

PARTE 53 – ESCOLA DE ALEXANDRIA (2ª aula)

A BÍBLIA E SUAS ESCOLAS RELIGIOSAS E FILOSÓFICAS.

 

Dentre as que chegaram até nós, as obras mais importantes de Clemente são três:


1ª - EXORTAÇÃO AOS GREGOS - tratado apologético que contem muita informação incidental sobre as religiões de mistério;

 

2ª - PEDAGOGO - o primeiro tratado a respeito da conduta cristã, fonte valiosíssima de informações sobre os costumes da época, e

 

3ª - STROMATA, ou MISCELÂNEAS, coleção de pensamentos profundos sobre religião e filosofia, arranjados sem muita preocupação sistemática. Todas elas demonstram ser fruto de um pensador altamente articulado e de vasta erudição.

 

Clemente interpretava o cristianismo como Fílon, havia feito com o judaísmo mediante a filosofia, como uma dogmática científica. Para ele, como para Justino, a quem excedeu em clareza e penetração intelectual, o Logos divino foi sempre a fonte de toda a inteligência e moralidade exigente na raça humana, o mestre universal da humanidade. "Nosso pedagogo é o Deus santo, Jesus, o Verbo que é o gia de toda a humanidade" É ele a fonte de toda filosofia verdadeira. "Deus é a causa de todas as coisas boas, mas principalmente, de algumas, tais como do A.T e N.T, e, por via de consequência, de outras, como a filosofia. Talvez a filosofia tenha sido concedida aos gregos direta e primariamente até que o Senhor chamasse os gregos. Pois ela foi pedagogo para levar a mente helênica, como a lei fora para os hebreus, a Cristo".

 

A introdução da humanidade pelo Logos foi, portanto, uma educação progressiva. Assim também acontece na igreja. "A fé" isto é, o cristianismo simples e tradicional, é bastante para a salvação, mas o homem que à fé adiciona "o conhecimento", entra na posse de algo mais valioso. É esse o verdadeiro gnóstico: o cristão. "A quem tem ser-lhe-á dado: à fé, o conhecimento; ao imerecimento, o amor, e ao amor, a herança". O bem supremo a que conduz o conhecimento - bem esse maior até que a salvação, que nele está implícita - é o conhecimento de Deus. "Poderíamos, então, supor que alguém propusesse ao gnóstico escolher entre o conhecimento de Deus e a salvação eterna. E se estes dois, que são totalmente idênticos, fossem separáveis, sem a menor hesitação ele escolheria o conhecimento de Deus".

 

O bem supremo carreta a ausência quase estoica de sentimentos, seja de prazer, seja de dor. Era nessa condição de bem-aventurança que Clemente cria ter estado o Cristo, e a qual os apóstolos haviam atingido mediante o seu ensino. Fácil é, portanto, compreender o fato de Clemente, tal como Justino, não manifestar interesse efetivo na vida terrena de Jesus. O Logos encarnou , é verdade, mas a ideia que Clemente fazia da vida de Criso era quase docética, muito mais do que a dos mestres considerados ortodoxos na Igreja dos seus próprios dias.

 

Israel Sarlo