25. jul, 2014

PARTE 63 - PERSEGUIÇÃO CONTRA A IGREJA

A perseguição de Décio foi, sem dúvida alguma, a pior provação que a Igreja, como um todo, teve de enfrentar. Foi a mais severa, especialmente porque, subjacente a ela, estavam princípios e a disposição do governo romano. Seu objetivo primário não era ceifar vidas, embora tivesse tido martírios numerosos e cruéis. Propunha-se antes a forçar os cristãos a oferecer sacrifícios aos antigos deuses, mediante tortura, encarceramento ou medo. Os bispos Fabiano, de Roma, e Babilas, de Antioquia, foram martirizados. Orígenes e inúmeros outros foram torturados. Grande foi o número dos "confessores" - como também o dos relapsos, isto é, aqueles que, por causa do medo ou das torturas, ofereciam sacrifícios, queimavam incenso ou obtinham certificados de funcionários amigos ou venais, que atestavam terem eles oferecido culto na forma prescrita pelo Estado.

 

Cessada a perseguição, muitos desses, amargamente arrependidos, procuraram readmissão à Igreja. Saber como tratá-los foi problema que causou um cisma longo e persistente em Roma, e muitas dificuldades em outras regiões. Feroz como foi, a perseguição de Décio e Valeriano logo findou. Mas voltou a ser renovada, de forma um pouco mais suave, pelo sucessor de Décio, Galo (251-253). Em 253, o antigo coadjutor de Décio na perseguição, Valeriano, obteve a posse do império (253-260). A princípio deixou os cristãos em paz. Mas em 257 e 258 voltou ao ataque, com redobrada ferocidade. Proibiram-se as assembleias cristãs, confiscaram-se as igrejas e os cemitérios, condenaram-se à morte bispos, presbíteros e diáconos, e cristãos de posição de destaque foram desterrados e tiveram seus bens confiscados. Foi nessa perseguição que Cipriano morreu em Cartago, o Bispo Sexto II e o Diácono Lourenço em Roma, e o Bispo Frutuoso em Tarragona, na Espanha. Foi um período de terrível provação, que se estendeu, com pequenos intervalos, de 250 a 259.

 

Em 260 Valeriano foi aprisionado pelos Persas. Seu filho, imperador associado e sucessor, Galiano (260-268), governante fraco e incompetente, logo desistiu da luta contra o cristianismo. As propriedades da Igreja foram restituídas. Mostrou-se para com os cristãos uma certa dose de favor, que tem sido interpretada, às vezes, errôneamente, como tolerância legal. Não se pode considerar como tal o ato de Galiano. As antigas leis contra os cristãos não chegaram a ser revogadas. No entanto, iniciou-se um período praticamente de paz, que duraria até o início da perseguição de Diocleciano, em 303, apesar de provavelmente ameaçado por Aureliano, logo antes de sua morte, em 275. A Igreja saiu da luta mais forte ainda do que antes.

 

Israel Sarlo

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