29. jul, 2014

PARTE 64 - DESENVOLVIMENTO CONSTITUCIONAL DA IGREJA

Já fizemos referência ao efeito da luta com o GNOSTICISMO e o MONTANISMO, sobre o desenvolvimento do episcopado como centro da unidade, testemunha da tradição apostólica e portadores da sucessão apostólica. As tendências então desenvolvidas continuaram a ser sentidas com intensidade crescente. O resultado foi que, entre 200 e 260, a Igreja, enquanto organização adquiriu a maior parte dos característicos constitucionais que se tornariam peculiares a ela durante todo o período do predomínio da cultura Greco-romana. Esse desenvolvimento manifestou-se, sobretudo, no aumento do poder dos bispos. As circunstâncias da época, as disputas com os gnósticos e montanistas, a liderança do número crescente de conversos incultos recentemente vindos do paganismo, a necessidade de uniformização do culto e da disciplina, todos esses eram fatores tendentes a centralizar no bispo os direitos e a autoridade que, nos períodos anteriores, haviam sido repartidos entre muitos. Os "dons do Espírito", que eram muito reais no pensamento dos cristãos da era apostólica e sub-apostólica, e nem podiam ser possuídos por qualquer pessoa, constituíram agora uma tradição, mais do que uma realidade vital. Essas idéias eram agora consideradas com suspeita, por causa da discussão com o montanismo, entre outras causas.

 

Subsistia, porém, a tradição, mas esta se transformava rapidamente numa teoria de dotes oficiais. Os "dons" eram agora posse oficial do clero, especialmente dos bispos. Estes eram os guardiões divinamente designados do depósito da fé e, portanto, os órgãos que podiam decidir o que era heresia. Eram os dirigentes do culto – assunto cuja importância aumentava constantemente, à medida que crescia a convicção, já generalizada co começo do século III, de que o ministério é um sacerdócio. Eram os órgãos oficiais de disciplina numa congregação, embora não estivesse ainda firmemente fixada sua autoridade a esse respeito, capazes de dizer quando o pecador precisava ser excomungado, e quando demonstrava grau de arrependimento para poder ser restaurada. Na expressão de Cipriano de Cartago, por volta de 250, o fundamento da Igreja é a unidade dos bispos.

 

A partir do começo do século II, os cristãos de uma determinada cidade passaram a ser sempre considerados membros de uma única comunidade, quer esta se constituísse de uma única congregação, quer de muitas. Estava, desse modo, sujeitos à liderança de um único bispo. A civilização antiga era fortemente urbana na sua constituição política. A cidade era o centro natural da vida das zonas rurais adjacentes. O cristianismo estabelecera-se nas cidades. Graças aos esforços originários dos núcleos cristãos urbanos, formaram-se congregações nas vilas e povoados vizinhos. Os membros destas, a princípio, iam à cidade para participar dos atos de culto. À medida em que cresciam em número, porém, passaram a reunir-se como grupos autônomos. Estabelecidas por cristãos provenientes dos centros urbanos, as congregações rurais estavam sob a supervisão do bispo da cidade, cujo campo imediato de superintendência, por conseguinte, cresceu, transformando-se, por volta do século III, em uma diocese. Em algumas áreas rurais do Oriente, notadamente na Síria e Ásia Menor, nas quais eram relativamente fraca a influência das cidades, desenvolveram-se, antes do fim do século III, grupos de congregações rurais, presididos por um bispo rural ou chorepskopos. Tal sistema, porém, não chegou a disseminar-se, nem eram esses bispos considerados iguais, em dignidade, aos seus irmãos no episcopado urbano. Esse sistema não atingiu o Ocidente durante essa época. Quando, durante a Idade Média, isso veio a acontecer, os resultados foram poucos satisfatórios.

 

Israel Sarlo

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