11. out, 2014

PARTE 77 - COSTUMES: A Ceia - continuação

(Continuação sobre a Ceia)

 

No entanto, um tipo de explicação de caráter mais místico surgiu desde logo. João 6:47-58 fala na necessidade de comer a carne e beber o sangue de Cristo para poder ter "vida". Para Inácio, a ceia é "remédio de imortalidade e antídoto para não morrer, mas sem viver eternamente". Justino afirmou: "Pois não recebemos isto como se fosse pão comum ou bebida comum. Antes, assim como Jesus Cristo, nosso Salvador, tendo sido feitio carne pelo Verbo de Deus, tenha tanto carne como sangue para nossa salvação, assim também foi-nos ensinado que o alimento abençoado pela oração da sua palavra - alimento esse mediante o qual nossa carne e sangue são nutridos por transformação - é a carne e o sangue daquele Jesus que se fez carne".

 

Ao tempo de Justino (153), a Ceia do Senhor já se havia separado da refeição comunitária. Celebrava-se às primeiras horas da manhã do domingo e era composta das seguintes partes: leituras de trechos das Escrituras, intercaladas com salmodia; orações comunitárias seguias do "AMEM" congregacional; beijo da paz; consagração do pão e vinho (a mais antiga dessas orações de consagração foi preservada nos escritos de Hipólito) e comunhão. As orações eram ditas extemporâneamene pelo bispo, embora os temas seguissem um esquema geral prefixado. É provável que as intercessões fossem feitas na forma de um prefácio seguido de silêncio e coleta final.

 

Irineu retomou e desenvolveu a idéia do QUARTO EVANGELHO e de Inácio, de que a ceia transmite "vida". "Pois, assim como o pão produzido pela terra, ao receber a invocação de Deus, não é mais pão comum mas EUCARISTIA, consistindo de duas realidades, a saber, a terrena e a celestial, assim também nossos corpos, ao receberem a EUCARISTIA, não são mais corruptíveis, possuindo a esperança da ressurreição que nos leva à eternidade". Difícil se torna decidir até onde essas concepções emanavam da influência das religiões de mistérios, com sua idéia de que o participar de uma refeição com o deus significa tornar-se participante da natureza divina. O que parece indubitável é estarem ambas essas idéias vinculadas à mesma linha de pensamento. Pode-se afirmar que, pelos meados do século II, generalizara-se a noção da presença real de Cristo na ceia.

 

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Israel Sarlo

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