24. nov, 2014

PARTE 83 - IGREJA X MORALIDADE

(A Composição da Igreja e o Duplo Padrão de Moralidade)

 

Não há dúvida de que nos tempos apostólicos concebia-se a Igreja como constituída exclusivamente de cristãos "por experiência" (Rm. 1:7; 1ª Co. 1:2; 2ª Co. 1:1; Cl. 1:2). Havia, por certo, homens iníquos que necessitavam de disciplina no contexto da comunidade cristã (1ª Co. 5:1-13), mas a Igreja podia ser descrita, de modo ideal, como "sem mácula, sem ruga, nem coisa semelhante" (Ef. 5:27). É natural que assim fosse.

 

O cristianismo surgiu como uma nova fé. Os que abraçavam faziam-no como resultado de uma convicção pessoal, e isso lhes custava não poucos sacrifícios. Durante muito tempo perdurou a noção de que a Igreja é uma comunidade de homens e mulheres salvos. Mesmo assim, era óbvia a presença de muitos indignos. Era precisamente disso que se queixava Hermes. O sermão mais antigo de que temos notícia na Igreja Cristã - foi do Novo Testamento - tem, para nós hoje, uma conotação muito moderna: "Porque os gentios, ao ouvirem de nossa boca os oráculos de Deus, ficavam maravilhados de sua beleza e grandeza. Mas logo, ao descobrirem que nossas oras não correspondem às palavras que falamos, mudam sua admiração em blasfêmia, afirmando que são pura ficção e engano".

 

Apesar do reconhecimento desses fatos, mantinha-se a teoria. O crescimento do cristianismo em idade, porém, acarretou uma mudança de opinião. Por volta do início do século III, havia muitos cujos pais e, possivelmente, ancestrais remotos, tinham sido cristãos "por experiência", mas que embora frequentassem os atos de adoração pública da igreja, só eram cristãos no nome.

 

O que eram eles? Não adoravam com os pagãos. O povo os considerava cristãos. Alguns tinham sido batizados ainda crianças. Havia na Igreja lugar para eles? O número deles era tão grande que a Igreja se via obrigada a acolhê-los. A concepção que tinha de si mesmo passava por uma transformação: de comunhão de santos que começava a considerar-se instrumento de salvação. Essa transformação era evidente no ensino do Bispo Calixto, de Roma (217-222). Citando a parábola do joio e do trigo (Mt. 13:21-30), Calixto comparava a Igreja à arca de Noé, na qual havia "coisas puras e impuras". Essas duas concepções acima indicadas dividem a opinião dos cristãos até os dias de hoje.

 

 

Israel Sarlo

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