7. dez, 2014

PARTE 84 - PADRÃO DE MORALIDADE

A rejeição dos montanistas e o declínio da expectativa do fim iminente do mundo, indubitavelmente contribuíram para a disseminação do mundanismo na Igreja - tendência essa que recebeu novo incremento da graça ao crescimento rápido da Igreja, entre 202 e 250, furo da adesão de pagãos conversos.

 

À medida que a prátia cristã comum se tonava menos rígida, no entanto, crescia o ascetismo, como ideal dos mais sérios. Não se deve esperar muito dos cristãos comuns - dizia-se. Na primeira metade do século II, o DIDAQUÊ exortava: "Se puderes suportar o jugo inteiro do Senhor, serás perfeito. Se, porém, não ativeres capacidade, faze aquilo que puderes". Hermes (100-140) ensinou que era possível fazer mais do que Deus ordenara, recebendo assim recompensa proporcional.

 

Essa tendência tornou-se cada vez mais acentuada. Fator de grande influência no seu desabrochamento foi a distinção entre os "conselhos" e as exigências do EVANGELHO, claramente estabelecida por Tertuliano (À Esposa) e Orígenes (Comentário sobre Romanos 3:3). Alegava-se que, embora as exigências do cristianismo atingissem todos os cristãos, os "conselhos" dizem respeito à que desejam viver a vida mais santa.

 

Tais conselhos de perfeição do EVANGELHO - aduzia-se referente a duas facetas da conduta. Cristo disse ao jovem rico: "Se queres ser perfeito, vai, vende os teus bens, dá aos pobre, e terás um tesouro no céu" (Mt.19:21). Declara também que há alguns que são "eunucos por causa do reino dos céus", e que "na ressurreição nem casam nem se dão em casamento; são, porém, como os anjos" (Mt. 19:12; 22:30) Paulo disse "aos solteiros e viúvos... que lhes seria bom se permanecessem no estado em que também eu vivo" (1ª Co. 7:8). A pobreza e o celibado voluntários eram considerados, portanto, conselhos impossíveis de serem compridos por todos os cristãos, mas conferem méritos especiais aos que os praticam.

 

Todo o ascetismo cristão primitivo girava em torno desses dois conceitos, que se tornaram, depois, os fundamentos do monaquismo, quando este veio a surgir, por volta do fim do século III. Partindo da premissa de que o clero devia dar exemplo particularmente bom, desde a época sub-apostólica não se via com bons olhos as segundas núpcias. Mais do que isso, já no começo do século III, o casamento após a admissão ao ministério clerical não era considerado permissível. A vida de celibado, pobreza e abandono contemplativo das atividades do mundo eram admiradas como corporificação do ideal cristão, e tornaram-se amplamente difundidos, embora, por enquanto, sem separação do convívio da sociedade.

 

Abriu-se, assim, o caminho que levaria ao monaquismo. Poder-se-ia aduzir que o aspecto mais lamentável desse duplo ideal estava na tendência de desacoroçar os reforços do cristão comum.

 

 

Israel Sarlo

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