17. dez, 2014

PARTE 86 - REPOUSO E CRESCIMENTO

O período de rápido crescimento, do qual estamos ocupando, trouxe consigo também uma crescente passividade da Igreja face às influências mundanas. Uma única ilustração será o bastante para mostrar-nos a dimensão desse fato: o concílio de Evira, a atual Granada, na Espanha (313, aproximadamente), decidiu que os cristãos, no exercício da magistratura, usassem as vestes do sacerdócio pagão, poderiam ser restaurados após dois anos de penitência, desde que não tivessem efetivamente sacrificado, ou pago por sacrifícios.

 

Comparada com a primeira, esta segunda ametade do século III foi um período de pequena produtividade literária ou originalidade teológica na Igreja. Não surgiram nomes de grande importância. O mais eminente foi o de Dionísio, que exerceu o episcopado de Alexandria (247-264), discípulo de Orígenes e, como seu mestre, diretor, por algum tempo, da famosa escola catequética. Por intermédio de sua obra ampliou-se a influência de Orígenes, cujo pensamento dominou o Oriente cristão da época. Dionísio combateu o difundidíssimo sabelianismo oriental. Instituiu o costume de enviar cartas ao seu clero, notificando-os da data da Páscoa - costume esse logo adotado e desenvolvido nas grandes sés episcopais, transformando-se em instrumentos de admoestação, definição doutrinária e polêmica. Além do sabelianismo, combatido por Dionísio, notava-se a presença vigorosa do monarquianismo dinâmico, representado em Antioquiana por Paulo de Samósata até o ano 272. Este bispo, dotado de grande capacidade administrativa, ocupou posição de grande relevo durante o reinado de Zenóbia, rainha de Palmira, sob cuja hegemonia esteve Antioquia por algum tempo, antes da derrota que lhe infligiu o Imperador Aureliano.

 

Os opositores de Paulo, frustrados no seu intento de privá-lo da posse dos edifícios da Igreja, recorreram a Aureliano, que decidiu que por direito pertenciam "aqueles a quem o bispo da Itália e da cidade de Roma os adjudicar”. Não há dúvida de que, ao tomar tal decisão, Aureliano era movido por considerações de ordem política, mas o que é importante é o fato do recurso cristão à autoridade imperial, e a deferência do imperador para um julgamento de Roma.

 

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Israel Sarlo

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