23. mar, 2015

PARTE 92 - IGREJA POLÍTICA

(Continuação da aula anterior)

 

Provavelmente no começo do ano 313, Constantino e Licínio encontraram-se em Milão e concordaram em conceder plena liberdade ao cristianismo. A esse episódio tem-se aplicado a designação de "Edito de Milão", embora não haja provas de que se tenha efetivamente publicado um edito. O único documento de que despomos é o rescrito de Licínio, dirigido a funcionários governamentais na Nicomédia, definindo os novos regulamentos a respeito do cristianíssimo. Ao que parece, rescritos locais transformaram em fato as decisões revolucionárias tomadas pelos dois imperadores no seu encontro em Milão. A nova política não se cifrava, como foi o caso do edito de 311, na mera tolerância, nem tão pouco fazia o do cristianismo a religião do império. Proclamava absoluta liberdade de consciência, colocava o cristianismo em pé de plena igualdade com qualquer outra religião do mundo romano, e ordenava que fossem restituídas todas as propriedades eclesiásticas confiscadas na recente perseguição.

 

Poucos meses após a promulgação do edito, em abril de 313, Licínio derrotou definitivamente o perseguidor Maximinio Daia, em batalha travada pelo de Adrianópolis, que aos olhos dos cristãos se assemelhou a uma segunda ponte Múlvia. Dois imperadores, porém, eram demais. Licínio, vencido por Constantino em 314, manteve a posse de menos de um quarto do império. Em desavença com Constantino, Licínio deixou-se tomar por um crescente ressentimento pelo favor dispensado por aquele ao cristianismo. Sua hostilidade transformou-se por fim em pura e simples perseguição. Foi, por conseguinte, com profunda satisfação que os cristãos acolheram sua derrota final em 323. Constantino tornou-se, por fim, o governante único do mundo romano. Livrava-se a Igreja da perseguição. Sua firmeza, e organização a haviam preservado em meio aos perigos. Livre dos seus inimigos, porém, caíu em grande parte sob o controle do trono imperial romano.

 

Começava assim uma união com o Estado que lhe haveria de ser fatal.

 

 

 

Israel Sarlo

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