26. abr, 2015

PARTE 93 - IGREJA POLÍTICA

Para a mentalidade essencialmente politica de Constantino, o cristianismo significa a culminância do processo de unificação que há muito se estava verificando no império. Havia uma só lei, um só imperador e uma única cidadania para todos os homens livres. Era necessário que houvesse também uma só religião. 

 

Não obstante estivessem distribuídos, de maneira desigual, pelo império, sendo mais numerosos no Oriente do que no Ocidente, os cristãos não passavam de uma fração da população quando aos acordos de Milão lhes concederam paridade de direitos. A Igreja cresceu com grande rapidez durante o período de paz, na segunda metade do século III. Sob a proteção imperial, esse crescimento seria vertiginoso. E tal proteção Constantino prontamente deu a Igreja.

 

Uma lei promulgada em 319 isentava o clero dos encargos públicos que tanto pesavam sobre os ombros das classes mais privilegiadas da população. Em 321 concedeu-se à Igreja o direito de receber legados, reconhecendo-se, por conseguinte, os seus privilégios de pessoa jurídica. Nesse mesmo ano proibiu-se o trabalho nas cidades, aos domingos. Em 319 proibira-se o oferecimento de sacrifícios pagãos em casas particulares. Faziam-se donativos ao clero e erigiram-se grandes templos em Roma, Jerusalém, Belém e outros lugares, sob o patrocínio imperial.

 

De particular importância foi a transferência formal da capital apara Bizâncio, que havia sido recém-construída. Constantino chamava-se Nova Roma, mas o mundo atribui a ela o nome imperial: Constantinopla. Embora os motivos tenham sido, sem dúvida, de caráter político e estratégico, as consequência religiosas da mudança foram vastas.

 

A fundação oficial, em 330, firmou a sede do império numa cidade de escassas tradições ou influências pagãs, situada na porção mais fortemente cristianizada do mundo de então. Mas do que isso, a transferência da capital fez do bispo de Roma o personagem mais importante na antiga sede do império, ao redor da qual ainda gravitava a vida do Ocidente de língua latina. Essa importância do bispo de Roma tinha ainda mais possibilidade de crescer no futuro, pelo fato de não ter sido pretendida por Constantino e revestir-se de caráter espiritual, e não político.

 

Os grandes favores demonstrados por Constantino para com a Igreja reservava-se exclusivamente aquela porção que a si mesmo se denominava "católica", forte, bem organizada e hierarquicamente estruturada. As várias seitas "heréticas" - e haviam muitas delas - não poderiam esperar receber mercê de suas mãos.

 

 

Israel Sarlo

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