1. jun, 2015

PARTE 94 - IGREJA POLÍTICA

A fim de o cristianismo poder tornar-se o fator de unificação do império, era necessário que a Igreja fosse uma. Constantino verificou que essa unidade estava seriamente ameaçada. A pregação movida sob o governo de Diocleciano ocasionou um cisma na África do Norte, um tanto complexo e motivado por questões pessoais, mas em muito semelhante ao de Novaciano em Roma, meio século antes.

 

A Igreja, naquela região, estava dividida. O partido rigorista acusava o novo bispo de Cartago Ceciliano, de haver recebido sagração, em 311, de um homem em estado de pecado mortal, o qual entregou às autoridades cópias das Escrituras, durante a recente perseguição. A sagração era, por conseguinte, considerada nula, e o partido escolheu um antibispo Majorino. Seu sucessor, em 316, foi o brilhante Donato, o Grande, de cujo nome preveio a designação de donatistas atribuídas ao partido.

 

No ano de 313, Constantino fez subvenções, em dinheiro, ao clero “católico” da África do Norte. Os donatistas, ao ser-lhes negada participação nessas subvenções, apelaram ao imperador. Um sínodo reuniu em Roma nesse mesmo ano decidiu contra eles, o que só serviu para exaltar ainda mais os ânimos. Diante disso, Constantino virou o que viria a ser, desde então, a política imperial com respeito aos problemas eclesiásticos. Convocou um sínodo correspondente à uma porção do império para reuni-se, a expensas do erário público, em Arls, no Sul da Gáia. A própria Igreja acabaria decidir a controvérsia, mas sob o controle imperial. Nesse lugar reunir-se então um grande concílio, em 314. Condenaram-se as pretensões donatistas.

 

As ordenações eram declaradas válidas mesmo quando feitas por clérigo pessoalmente indigno. Reconhecia-se igualmente o batismo herético e aprovaram-se a data romana de comemoração da Páscoa. Os donatistas recorreram novamente ao imperador, o qual uma vez mais lhes negou razão, em 316. Diante de sua recusa em curvar-se diante de tais decisões, Constantino ordenou que suas igrejas fossem fechadas e banidos os seus bispos. Viu-se e não o triste espetáculo de cristãos persseguir outros cristãos.

 

A África do Norte estava em ebulição. Constantino, no entanto, insatisfeito com os resultados abandou, em 321, o uso da força contra os cismáticos. Com isso, a seita cresceu rapidamente, proclamando-se a si mesma como a única igreja que possuía clero livre de “pecados mortais” e que administrava os únicos sacramentos válidos. Só depois da conquista muçulmana vieram os donatistas a desaparecer.

 

No próximo capítulo vamos a controvérsia ARIANA até a morte de Constantino.

 

Israel Sarlo

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