15. jul, 2015

PARTE 95 - DO ARIANISMO ATÉ A MORTE DE CONSTANTINO

A grande controvérsia ariana representava para a unidade da IGREJA perigo muito maior do que o cisma donatista. Já lembramos que graças à obra de Tertuliano e Novaciano tinha chegado praticamente à unanimidade no que diz respeito à unidade de substância entre Cristo e o Pai, o Oriente ainda estava dividido. Das obras do teólogo oriental dominante, Orígenes, extraíam-se citações conflitantes. Se a verdade que proclamava a geração eterna do Filho, não menos verdade é que também considerava o Filho como um segundo Deus e criatura. Ao redor de Antioquia persistiam as tendências adocianistas, ao passo que o sabelianismo grassava no Egito. Além disso, o Oriente preocupava-se muitíssimo mais intensamente com a perquirição teológico do que o Ocidente, o que tornava também mais dado à polêmica. Não se pode negar, igualmente, que a porção de língua grega do império, no século IV, dispunha de talentos intelectuais muito mais avantajados do que a de língua latina.

 

A causa real da luta estava nessas diferentes interpretações, mas a controvérsia propriamente dita começou em Alexandria, por volta de 320, com uma disputa entre Ário e seu bispo Alexandre (312?-328). Discípulo de Luciano de Antioquia, Ário era um presbítero encarregado da igreja conhecida como Baucalis. Era já de certa idade e tido em alta conta como pregador de grande erudição, capacidade e devoção. As influências monarquianas recebidas em Antioquia levaram-no a realçar a unidade e existência auto-suficiente de Deus.

 

Na medida em que seguia os ensinos de Orígenes, representava a doutrina do grande alexandrino que conceituava o Cristo como um ser criado. Como tal, Cristo não era de mesma substância de Deus, tendo sido feito do “nada”, como as demais criaturas. Não era, por conseguinte, eterno, embora o primeiro entre as criaturas e agente na criação do mundo. “O Filho tem princípio, mas Deus é sem princípio”. Para Ário, Cristo era, na verdade, Deus em certo sentido, mas um Deus inferior, de modo algum uno como Pai em essência ou eternidade. Na encarnação, em Logos entrou em um corpo humano, tomando o lugar do espírito racional humano. No pensamento de Ário, por conseguinte, cristo não era nem perfeitamente Deus nem perfeitamente homem, mas um tertium quid intermédio. É isso o que torna totalmente insatisfatória a sua concepção.

 

O Bispo Alexandre sofreu a influência da outra faceta do ensino de Orígenes. Para ele, o Filho era eterno, da mesma substância do Pai e absolutamente incriado. Talvez faltasse a sua concepção um pouco de clareza, mas evidencia-se a dessemelhança entre ela e a de Ário. Estabeleceu-se então a controvérsia entre ambos, aparentemente por iniciativa de Ário, e com intensidade cada vez mais crescente.

 

Por volta de 320 ou 321, Alexandre convocou um sínodo em Alexandria, que lançou condenação sobre Ário e alguns de seus simpatizantes. Ário buscou então o auxílio de um antigo colega na escola de Luciano, o poderoso Bispo Eusébio de Nicomédia, refugiando-se ao seu lado. Alexandre escreveu várias cartas aos seus colegas no episcopado, ao passo que Ário, auxiliado por Eusébio, defendia sua posição. O mundo eclesiástico entrava em ebulição.  Essa era a situação ao tempo de vitória de Constantino sobre Licínio, que o fez senhor tanto do Oriente como do Ocidente.

 

A controvérsia ameaçava a unidade da Igreja, essencial para Constantino. O imperador enviou então a Alexandria o seu principal conselheiro para assuntos eclesiásticos, o Bispo Hósio, de Córdova, na Espanha, fazendo-o portador de uma carta imperial em que aconselhava a que se preservasse a paz e descrevia o problema como “uma questão sem proveito”. Foi vão esse esforço bem intencionado, mas mal dirigido. Constantino resolve então lançar mão do mesmo recuso de que já se serviu em Arles, diante da discussão donatista. Convocou um concílio da Igreja inteira. O de Arles congregou representantes da porção do império por ele governada então. Constantino era agora senhor de todo o império. Todos os bispos do império foram, portanto, convocados. O princípio era o mesmo, mas a extensão da jurisdição de Constantino fez da reunião de Nicéia o primeiro concílio geral da igreja.

 

Reunido em Nicéia em maio de 325, esse concílio permanece na tradição cristã como o mais importante da história da Igreja. A ele acorreram os bispos, a expensas do governo, acompanhados por clérigos das ordens inferiores, os quais não dispunham, porém, do direito de voto nas decisões. Os representantes orientais predominavam numericamente. Dentre aproximadamente trezentos bispos presentes, só seis provinham do Ocidente. Havia três partidos: um menor, radicalmente ariano, liderado por Eusébio de Nicomédia; outro, também pequeno, entusiasticamente apoiava Alexandre, e a grande maioria, cujo líder era o historiador eclesiástico Eusébio de Cesárea, homens pouco versados nos problemas sob discussão. Na verdade a maioria, como um todo, pode ser descrita por um escritor pouco benevolente como “simplórios”. Os que tinham opinião formada fundamentavam-se em geral nos ensinos de Orígenes. Destacava-se na assembléia a presença do próprio imperador, o qual, apesar de não ser batizado – razão porque não podia, do ponto de vista técnico, ser considerado membro da igreja – era alguém cuja importância não podia deixar de ser acolhida entusiasticamente.

 

O concílio, quase no começo, rejeitou um credo proposto pelos arianos. Eusébio de Cesaréia apresentou então o credo usado em sua própria igreja. Era uma confissão em termos moderados, originária de antes da controvérsia, e, por conseguinte, indefinida quanto aos problemas específicos que agitavam a reunião. Introduziu nesse credo de Cesaréia a seguir uma emenda importantíssima, aditando-se-lhe as expressões: “gerado, não feito, consubstancial (homoousion) com o Pai”.

 

Rejeitaram-se especificamente, também, formulas arianas, tais como “houve tempo em que Ele não era” e “feito do que não era”. Usaram-se como expressões equivalentes as palavras “essência”, “substância” (ousia) e “hipóstasis”, que mais tarde adquiriram conotações tecnicamente diversas.

 

Loofs tentou demonstrar que essas modificações foram introduzidas por influência dos ocidentais, notadamente, sem dúvida, a de Hósio de Cordova, apoiado pelo imperador. A palavra-chave homoosion, em particular, por muito tempo, tinha sido considerada ortodoxa na sua versão latina e usada na filosofia durante o século II, apesar de rejeitada por um sínodo reunido em Antioquia, o curso da polêmica contra Paulo de Samósata. Na realidade, foi pouco usada pelo próprio Atanásionos seus primeiros pronunciamentos em favor da fé Nicéia.

 

É fácil compreender a atitude tomada por Constantino. Sendo ele especialmente um político, pensou que uma fórmula que não encontrasse oposição na parte ocidental do império e contasse com o apoio de uma porção do Oriente, seria mais aceitável do que qualquer outra que pudesse ser rejeitada pelo Ocidente inteiro, e receber a anuência de ao mais do que uma porção do Oriente. Deveu-se à influência de Constantino a adoção da definição de Nicéia. A afirmação de que ele algum dia chegou a entender todas as nuanças de sentido implícitas nessa fórmula é mais que duvidosa.

 

O imperador, no entanto, desejava que se chegasse a uma expressão unificada da fé da Igreja em face do problema em foco, e estava convicto de a haver obtido. Sob sua supervisão, todos os bispos a subscreveram, com exceção de dois, os quais, juntamente com Ário, foram banidos por Constantino. A política imperial conseguiu manter a unidade da Igreja, dando a esta o que nunca antes possuíu, a saber, uma declaração que podia ser considerada um credo universalmente aceito.

 

Israel Sarlo

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