14. mar, 2016

A REFORMA PROTESTANTE - PARTE 07

O QUE PRECISAMOS SABER SOBRE A REFORMA PROTESTANTE – PARTE 07

 

Lutero não desejou discussão com o papado. Parece que estava certo de que o papa notaria, como ele viu, os abusos das indulgências. Mas o curso dos acontecimentos não lhe deu outra escolha senão a defesa firme de suas opiniões ou a submissão. Em junho de 1518 o Papa Leão X intimou Lutero a comparecer em Roma. Ao mesmo tempo determinou que o seu censor de livros, o dominicano Silvestre Mazzoline de Prierio opinasse sobre a posição do intimado. Este recebeu a intimação e a resposta do censor no começo de agosto. Prierio afirmava que “a Igreja Romana é representada pelo colégio dos cardeais e, além disso, é virtualmente o sumo pontífice”. E mais: “quem diz que a Igreja Romana não pode fazer o que atualmente está fazendo com respeito às indulgências, é herege”. O caso de Lutero aparentemente teria terminado logo com sua condenação não tivesse tido ele a poderosa proteção de seu príncipe, o eleitor Frederico, o “Sábio”. Até onde o príncipe simpatizava com as crenças religiosas de Lutero é assunto de discussão, mas, em todo o caso, ele se orgulhava de seu professor de Wittenberg e era contrário a uma quase certa condenação em Roma. Sua habilidade política conseguiu que a audiência fosse feita não em Roma, perante a corte papal, mas perante o legado papal no Reichstag, em Agsburgo. O legado era o culto comentador de Aquino, Cardeal Tomás Vio (1469-1534), conhecido pelo lugar de seu nascimento (Gaeta) como Cajetano. Cajetano era teólogo de fama na Europa e parece haver considerado o assinto indigno de sua alta categoria. Ordenou que Lutero se retratasse, especialmente das críticas da falta de poder papal sobre as indulgências. Negou-se Lutero, e a 20 de outubro retirou-se de Augsborgo, tendo apelado ao papa “melhor informado”. Não satisfeito com isto, de Wittenberg, em novembro de 1518, apelou a um futuro concílio geral. As poucas possibilidades de ser favoravelmente ouvido em Roma são demonstradas pela bula publicada no mesmo mês por Leão X, definindo as indulgências no sentido em que Lutero as criticara. Não tinha fundadas esperanças de escapar. Se for grande sua coragem, o perigo que correu não foi menor. A favorável reviravolta dos eventos políticos o livraram de imediata condenação.

 

Enquanto isso, no verão de 1518, fora instalado em Wittenberg como professor de grego um erudito moço natural de Bretten e sobrinho-neto de Reuchlin, Filipe Melanchton (1497-1560), que viria a estar intimamente ligado a Lutero nos anos subseqüentes. Nunca houve maior contraste entre duas pessoas. Melanchton era tímido e retraído, mas sem rival na cultura. Entanto, sob a forte impressão da personalidade de Lutero, dedicou sua apreciável capacidade, quase desde sua chegada a Wittenberg, a cooperar na causa luterana.

 

O Imperador Maximiliano estava caramente no fim da vida – morreu em janeiro de 1519 – e pesava a ameaça de tumultos numa acirrada eleição do seu substituo. O Papa Leão X, como príncipe italiano, observava com desagrado a candidatura de Carlos da Espanha ou a de Francisco da França, como incentivadoras da influência estrangeira na Itália. Com bons olhos, porém, via o eleitor Frederico, a quem, de bom grado, escolheria. Não era, pois, hora de agir contra o professor protegido de Frederico. Então o papa enviou ao eleitor o seu camarista, o saxônio Carlos Von Militz, como núncio e portando uma rosa de ouro, expressivo presente do alto apreço papal. Militz imaginou que poderia sanar a questão, e foi muito além de suas atribuições. De moto próprio repudiou Tetzel e teve uma entrevista com Lutero, a quem solicitou guardar silêncio nos assuntos em discussão, submeter o caso, se possível, aos eruditos bispos alemãs, e escrever humildemente carta ao papa.

 

Israel Sarlo

www.facebook.com/caminhoeavida