19. mar, 2016

A REFORMA PROTESTANTE - PARTE 09

O QUE PRECISAMOS SABER SOBRE A REFORMA PROTESTANTE –  PARTE 09

 

Dois meses depois Lutero publicou em latim seu Cativeiro Babilônico da Igreja. Nesse livro, questões da mais alta importância teológica, mormente os sacramentos, foram tratadas e o ensino da Igreja Romana atacado fortemente.

 

O único valor de um sacramento ensinou Lutero, é seu testemunho da promessa divina. Sela ou atesta o pacto dado por Deus de união com Cristo e perdão de pecados. Fortalece a fé. Segundo as normas da Escritura, há só dois sacramentos, batismo e Ceia do Senhor, ainda que a penitência tenha certo valor sacramental como um retorno ao batismo. Votos monásticos, peregrinações e obras meritórias são substitutos criados pelo homem para o perdão dos pecados gratuitamente prometido à fé, no batismo. Lutero criticou a negação do cálice aos leigos, punha dúvidas na transubstanciação e especialmente rejeitava a doutrina de que a Ceia é um sacrifício oferecido a Deus. Os outros sacramentos romanos: confirmação, matrimônio, ordens, extrema-unção não tem valor sacramental na Escritura.

 

Uma das maravilhas da tempestuosa carreira de Lutero é que, ao mesmo tempo destes tratados intensamente polêmicos e quando a bula papal era publicada na Alemanha, era ele capaz de escrever e publicar sua terceira grande obra de 1520 – Sobre a Liberdade Cristã. Nela apresentava, com serena confiança, o paradoxo da experiência cristã: “Um cristão é o senhor mais livre de todos, e não está sujeito a ninguém. Um cristão é o mais devoto servo de todos, e a todos está sujeito”. É livre porque está justificado pela, não permanece sob das obras e está em nova relação pessoal com Cristo. É servo porque, obrigado pelo amor, coloca sua vida em conformidade com a vontade de Deus e se se torna auxiliar de seu próximo. Neste tratado, como em nenhuma outra obra, a força e as limitações do luteranismo são evidentes. Para Lutero, a essência do Evangelho é o perdão dos pecados, alcançado pela fé, a qual, como em Paulo, não é nada menos que uma relação pessoal e transformadora da alma com Cristo. A guisa de prefácio, para ela Lutero escreveu uma carta endereçada ao papa Leão X. É um curioso documento, respirando boa vontade para com o pontífice pessoalmente, mas repleto de denúncias à corte papal e suas pretensões para o papado, e na qual o papa é representado como “um cordeiro sentado o meio de lobos”. Ainda que a visão de Lutero haveria de se aclarar depois com referências a vários pormenores, sua concepção teológica do Evangelho cristão estava assim praticamente completa, em linhas gerais, em 1520.

 

No entanto, Eck e Girolamo Aleander (1480-1542), Como núncios, chegavam à Alemanha com a bula papal. Sua publicação não foi permitida em Wittenberg e sua recepção em grande parte do país foi mais ou menos fria ou hostil. Aleander, porém, conseguiu publicá-la nos Países Baixos e queimou os livros de Lutero em Lovaina, Liege, Antuérpia e Colônia. Em 10 de dezembro Lutero replicou queimando a bula papal e a lei canônica, com a presença aprovadora de estudantes e habitante4s de Wittenberg e sem oposição das autoridades civis. Era claro que parte considerável da Alemanha estava em rebelião eclesiástica, e a situação exigia a atenção das mais altas autoridades do império.

 

Em 28 de junho9 de 1519, enquanto se desenrolava a disputa de Leipzig, a eleição imperial resultara na escolha de Carlos V (1500-1558), neto de Maximiliano. Herdeiro da Espanha, Países Baixos, território austríaco da casa de Habsburgo, senhor de considerável parte da Itália e dos recém-descobertos territórios de além-Atlântico, sua eleição como Sacro Imperador Romano punha-o como cabeça de tão vasto território como outro qualquer governante não o fora desde Carlos Magno. Na Alemanha, no entanto, sua autoridade era bastante limitada pelos poderes locais dos príncipes territoriais. Carlos era ainda jovem e desconhecido, e ambos os partidos das lutas religiosas do dia alimentavam esperanças grandes de conquistar seu apoio. De fato, era zeloso católico, do tipo de sua avó, Isabel de Castela, compartindo das idéias reformadoras dela, desejoso de melhoras na moral, educação e administração clericais, mas totalmente sem simpatia por qualquer desvio no sistema doutrinário ou hierárquico da Idade Média. Chegara por fim à Alemanha. E viera, em parte, para regularizar o governo do país e, por outro lado, prepara a guerra iminente devida às pretensões rivais da França e Espanha na Itália. Com esta finalidade convocar o Reichstag para o mês de novembro de 1520, em Worms. Ainda que houvesse muitos outros assuntos, todos sentiam que a solução do caso de Lutero era da maior importância. Aleander, o único, insistiu numa pronta condenação especialmente depois de a bula final haver sido publicada em 2 de Janeiro de 1521. Visto que Lutero estava já condenado pelo papa, o Reichstag teimava Aleander, não tinha outro dever senão tornar efetiva essa condenação.

 

Lutero tinha vasto apoio popular, e seu príncipe, o eleitor Frederico, o Sábio, mestre na intriga diplomática, era de opinião, afortunadamente para Lutero, de que o monge condenado nunca fora devidamente processado. Frederico e outros nobres achavam que ele devia ser ouvido pelo Reichstag antes de ser tomada uma resolução. Entre as duas opiniões, o imperador vacilava. Estava convencido de que Lutero era um monge condenável, mas, bastante político, percebeu não ser conveniente opor-se aos sentimentos alemães tão sensíveis. Também não queria perder a possível vantagem de fazer do destino do herege uma alavanca capaz de trazer o papa para o seu lado na luta com a França.

 

Israel Sarlo

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