25. mar, 2016

A REFORMA PROTESTANTE - PARTE 10

O QUE PRECISAMOS SABER SOBRE A REFORMA PROTESTANTE –  PARTE 10

 

O resultado foi ser Lutero intimado a comparecer em Worms, sob a proteção de um salvo-conduto imperial. Desde Wittenberg sua viagem praticamente decorreu sob ovação popular. No dia 17 de abril de 1521 Lutero compareceu ante o imperador e o Reichstag. Uma pilha de livros lhe foi mostrada e lhe fizeram pergunta se retratava deles ou não. Lutero pediu tempo para refletir. Foi-lhe dado um dia. E na tarde seguinte mais uma vez enfrentou a assembléia. Então reconheceu que, no calor da discussão, usara expressões duras contra pessoas. Mas quanto à substância do que escrevera não tinha do que se retratar, a menos que pela Escritura ou com argumentos irrespondíveis o convencessem de erro. O imperador, que não podia crê houvesse tamanha temeridade capaz de negar a infalibilidade de um concílio geral, cortou a discussão. Não é certo, mas é bem possível, tenha Lutero exclamado: “Não posso fazer outra coisa. Aqui estou. Deus me ajude. Amém”. Estas palavras, pelo menos, expressam a essência de usa irremovível determinação. Dera grande testemunho histórico à veracidade de suas convicções, ante o mais alto tribunal de sua nação. E deu cabal prova de sua intimorata. A opinião de seus julgadores ficou dividida. No entanto, se pela sua forte e, no juízo deles, infundada afirmação, perdeu o imperador e os bispos, ao mesmo tempo fez impressão favorável sobre muitos nobre alemães e, felizmente, sobre o eleitor Frederico. Este príncipe, embora julgando Lutero por demais atrevido, confirmou sua determinação de que dano algum viria ao reformador. O resultado parece uma derrota para Lutero. Um mês após haver partido a caminho de casa, foi formalmente posto sob interdição imperial, mesmo que já tivesse se retirado muitos membros do Reichstag. Deveria ser preso a fim de ser punido e seus livros queimados. Tal interdito nunca foi formalmente anulado, e até o fim de da vida Lutero esteve debaixo da condenação imperial.

 

Estivesse a Alemanha controlada por forte autoridade central, a carreira de Lutero logo teria terminado em martírio. Mas, por isso mesmo, nenhum edito imperial seria posto em execução contra a vontade de um forte governador territorial, e Frederico, o Sábio, mais uma vez salvou Lutero. Não querendo sair abertamente em sua defesa, talvez temendo tal atitude, fez que mãos amigas o prendessem quando regressava a Worms e, em segredo, o levassem ao castelo de Wartburgo, perto de Eisenack. Durante meses seu esconderijo foi desconhecido; mas que estava vivo e participando dos azares da luta sua pena brilhante logo demonstrou. Seus ataques às práticas romanas aumentaram de intensidade. O entanto, o mais durável fruto desse período de retiro forçado dói sua tradução do Novo Testamento. Começou-a em dezembro de 1521 e a publicação se deu em setembro do ano seguinte. Lutero, porém, não foi o primeiro tradutor das Escrituras para o Alemão. As primeiras traduções haviam sido feitas da Vulgata, e eram duras e grosseiras. O trabalho de Lutero não foi meramente traduzir do grego, para o que se baseou nas obras de Erasmo. Seu trabalho era fácil de ler e foi criador do idioma. Essa tradução grandemente determinou o linguajar que marcou a futura literatura alemã – o da chancelaria saxônia do tempo - elaborado e polido por um mestre da expressão popular.

 

Poucos serviços maiores do que esta tradução foram prestados ao desenvolvimento da vida religiosa de uma nação. Mas nem com toda sua deferência pela Palavra de Deus, deixara Lutero de ter suas normas próprias de crítica. Estas foram a base da relativa clareza com que ensinava sua interpretação da obra de Cristo e o método da salvação pela fé. Julgados por esses padrões, a ele pareceu que Hebreus, Tiago, Judas e Apocalipse eram de valor inferior. E mais, que na mesma Escritura havia diferença de valor.

 

 

No mês em que Lutero começou seu trabalho como tradutor – dezembro de 1521 – foi publicado em Wittenberg um pequeno volume de Melanchton, foi Loci Communes, ou seja, pontos cardeais da teologia. Pode-se dizer que com ele começou a apresentação sistemática da teologia luterana. Seria ampliado, desenvolvido e modificado em muitas edições posteriores.

 

Israel Sarlo

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