24. jan, 2015

DEUS FEZ O HOMEM E DO HOMEM FEZ A MULHER

Texto em hebraico: (Gn.1:26-31)

 

(26)Elohîms diz: Nós faremos Adâm __ o Terroso ___ a nossa réplica, segundo nossa semelhança. Eles (Adão e Eva), o peixe do mar, o volátil dos céus, o animal, toda a terra, todo réptil que rasteja sobre terra.

 

(27)Elohîms cria o terroso à sua réplica, a réplica de Elohîms, ele o cria, macho e fêmea Ele o cria.

 

(28)Elohîms os bendiz. Elohîms lhes diz: Frutificai, multiplicai, enchei a terra, conquista-a. Assujeitai o peixe do mar, o volátil dos céus, todo vivente quer rasteja sobre a terra.

 

(29)Elohîms diz: Eis, eu vos dei toda erva semeando semente sobre as faces de toda a terra, e toda árvore trazendo em si furto de árvore, semeando semente: Isso será vosso alimento.

 

(30)Para todo vivente da terra, para todo volátil dos céus, para todo réptil sobre a terra, trazendo em si ser vivente, toda verdura de erva será alimento. E é assim.

 

(31)Elohîms vê tudo o que havia feito, e eis? Um intenso bem. E é tarde e manhã: dia sexto.

 

No (v.26) encontramos a expressão: “...Nós faremos:...” emprego raríssimo de um verbo no plural da fala de Elohîms. Aqui, como em Gênesis 3:22 e Gn 11:7, trata-se das relações do Único com a totalidade dos humanos. Em Isaías 6:8, trata-se da relação com um profeta excepcional.

 

A exegese hebraica, para fugir ao risco de uma leitura politeísta da Bíblia, declara que antes de dar a criação o seu chefe, o homem, Elohîms quis consultar todos aqueles a quem já havia criado, inclusive os anjos. Daí o emprego do plural, imediatamente corrigido nos versículos seguintes pelo retorno ao singular. Esta implosão do plural é eficaz para sublinhar a importância única do homem nas hierarquias do universo: a totalidade do real preside a sua criação.

 

Também temos a palavra “réplica” sélèm: uma espécie de conformidade que Elohîms restabelecerá, por graça, após o peado, o dilúvio e a salvação que ele concederá a Noah e aos seus (Gn.9:6).

 

Temos ainda a palavra “semelhança” demout: uma semelhança fundada na espécie, uma semelhança tal que os homens a transmitirão uns aos outros através das gerações, mesmo após a queda (Gn.5:3). Mas terão perdido a demout divina.

 

Nahmanide comenta: “A melhor de todas as explicações tentadas no sentido de se explicar este verbo é aquela que liga sélèm, ‘réplica’, ao aspecto e á expressão do rosto, e demout, ‘semelhança’, á forma corporal, que se assemelha aquela dos seres terrestres, pois o homem a eles se assemelham por seu corpo e, por sua alma, aos seres superiores.”  Os olhos, chaves do rosto, não são o espelho da alma? Os cabalistas tomarão a expressão ao pé da letra: “O homem é o microcosmo do universo e de seu criador; ele apresenta, projetada sobre a terra, ‘a sombra’ (sèl) de Adonai, de quem é a réplica, sélèm. A dobra de Adonai sobre si mesmo, sîm-soum, permite, por amor, a projeção do mundo criado e de seu chefe, o homem, filho e pai do amor”.

 

No (v.28). A primeira ordem dada ao homem é a do amor: a vida recebida deve ser transmitida com superabundância. O texto indica, todavia, uma ordem profunda: trata-se, desde logo, de frutificar, quer dizer, dar fruto, conclusão, e, em seguida, de multiplicá-lo. O homem, convocado assim a sua conclusão, é instituído aqui senhor da criação, livre para apropriar-se licitamente dos bens e dos produtos da terra. (Notem que o homem é o criador de tudo, é só olharmos João1:1ss. Portanto, o Senhor Homem que se refere o texto é Jesus Homem, com um corpo diferente do Emanuel, nascido de Maria, mas homem e Adâm foi feito esta imagem, não a do corpo do homem atual, é importante atentarmos para este detalhe pois a mulher tirou-lhe o direito deste corpo, só Jesus o teve novamente na ressurreição.)

 

Ele coroa a criação jorrada de palavras de Elohîms, Adâm (Adão) é uma réplica de Elohîms: o Adâm original, o ser perfeito saído a palavra de Elohîms é, a um só tempo, macho e fêmea. (Notem: o Adão criado a imagem e semelhança de Elohîm e não o destituído da imagem, isto quer dizer que o homem foi separado da mulher, e por isto tornaram-se opositores. Veremos isto mais tarde) O tema do andrógino está profundamente ligado à visão que os hebreus têm do homem e da mulher. Assim é que Adâm é um termo genérico englobando toda a humanidade, “o humano”, que pode ainda ser traduzido por “o Terroso”, ou ainda “O Arruivado” (cf.Gn.2:7). Somente após a criação da mulher, (Gn 2:23), o nome do homem propriamente dito aparece, Is, de modo que a mulher tirada de seu corpo torna-se Isha (homese, dever-se-ia traduzir para sublinhar a identidade dos nomes que os designam).

 

A relação sexual aludida em Gn 2:22 tem por conseqüência essencial reconstituir o andrógino original. Platão (O Banquete) sublinha que o homem e a mulher se recordam obscuramente de sua ambivalência original, e explica desse modo a violência do desejo que os impele um contra o outro. Irineu retoma o tema da criação do homem: “Deus criou o homem com as suas próprias mãos, tomando um pouco de terra fina, a mais pura, e unindo com medida, sua força á da terra. Isto feito, ele imprimiu a própria semelhança sem sua criatura, a fim de que fosse bem visível que ela é feita á imagem de Deus... Para dar vida ao homem, Deus sopra sobre seu rosto, e este sopro vivificador torna o homem á semelhança de Deus. Ele foi criado livre e senhor de seus atos, e foi destinado por este mesmo Deus a comandar tudo o que existir sobre a terra.” Metódio de Olimpo afirma os mesmos princípios em outros termos: “Desse modo, penso que o conjunto do sistema do mundo foi criado para o homem e tendo em vista a satisfação de suas necessidades, e que o homem foi criado para glorificar Deus, cuja bondade tem, assim, matérias sobre as quais se exercem.”

 

Fato essencial a ser observado: o homem __ Adâm __ é terra, “um terroso”, embora “arruivado”, sua mulher, Hava, é que é “vida”, doadora de vida.

 

 

JARDIM EM ‘ÉDÈN 

“Eles são concluídos, os céus, a terra e toda a sua milícia” (Ge.2:1)

 

O breve interlúdio do ‘EDÈN produziu uma literatura imensa além de inúmeras ilustrações, como se a humanidade inteira se houvesse reconhecido em seu tema. A ótica do narrador muda: em Gn. 1, ele descrevia a criação dos céus e da terra, aqui o homem ocupa o centro da terra e dos céus (Gn 2:4). O estilo, que a crítica atribui a dois autores, o eloísta e o sacerdotal pode ser diferente, mas as duas versões da criação do homem são claramente complementares. Elas lembram mitos mesopotâmicos muito antigos (inclusive o mito da árvore da vida), genialmente reinterpretados sob a luz nova do Eloísmo unitário ético.

 

Aqui surge pela primeira vez o Nome de Adonai, nome próprio, incomunicável, e revelado a Israel por intermédio de Moshé, Ex.3:14.

 

“ADONAI ELOHÎMS forma o terroso __ Adâm, pó do terreno __ Adâm. Ele insufla em suas narinas um hálito de vida: e é o terroso, um ser vivente.” (Gn.2:7)

 

“ADONAI ELOHÎMS faz ferminar do terreno toda árvore cobiçável para a vista e boa de comer, a árvore da vida, no meio do Jardim, e a árvore da penetração do bem e do mal” (Gn.2:9).

 

ADÂM: o texto o aproxima do termo adama, “gleba, terreno”. Pode-se pensar também no adjetivo adôm, “vermelho”. No Oriente, as argilas mais férteis e mais pláticas são vermelhas. Homens e húmus ou terrenos e terroso mantém a mesma relação lingüística que Adâm e adama.

 

A ÁRVORE DA PENETRAÇÃO ‘iada’: este verbo tem sempre um sentido concreto, experimental. No centro do relato, como no centro do ‘Édèn’, encontra-se a árvore da penetração, que dá áqueles que a comem o poder de penetrar o bem e o mal (Gn.3:5 ss).

 

Nos versículos 16 ss do capítulo 2 lemos:

 

“Assim Adonai Elohîms ordena ao terroso: ‘De toda árvore do jardim comerás, comerás, mas da árvore da penetração do bem e do mal, não comerás, sim, no dia em que dela comeres morrerás, morrerás.  Adonai Elohîms diz: ‘Não é bom para o terroso estar sozinho! Farei para ele uma auxiliadora contra ele. Adonai Elohîms forma, a partir do terreno, todo animal do campo, todo volátil dos céus, ele os faz vir ao pé do terroso para ver o que ele lhes clamará. Tudo o que o terroso clama ao ser vivente é seu nome.”

 

ELOHÎMS NECESSITA DOS HOMENS: aqui ele pede ao terroso que nomeie os seres vivos. Uma vez mais, notamos o valor original da palavra; mais do que um meio de comunicação ele tem o poder de desvendar e de transformar o mundo; a grade de compreensão do homem deve corresponder ao código criador. O Alcorão não retomou todos os episódios do Gênesis. Mas, testemunho da aura cultural das tribos judaicas da Arábia na época de Maomé, ele os cita ou ecoa, retomando por vezes, temas dos midrashims talmúdicos: Elohîms ensina ao terroso o nome de todos os seres, o que mesmo os anjos ignoram. E é o terroso quem vai ensinar aos anjos o que aprendeu de Elohîms. Nomeando os seres vivos ele assume sua função de vicário de Elohîms, de rei da criação. João Crisóstomo desenvolve a mesma idéia: “Deus, para demonstrar seu poder a Adâm, permite-lhe impor os nomes”. Fílon, igualmente, dizia: “Deus havia feito do homem seu tenente e o chefe de todo o resto da criação... cabia-lhe nomear cada um de seus subordinados”.

 

No (v.20s): “O terroso clama nomes para toda fera para todo volátil dos céus, para todo animal do campo. Mas para o terroso ele ainda não havia encontrado auxiliar contra ele. Elohîm molda a costela que tomara ao terroso em mulher e a faz vir junto ao terroso”

 

NÃO HAVIA ENCONTRADO: nenhum dos animais nomeados por Adâm e, por isso mesmo, revelados em seu ser, mostrou-se suficiente, adequado, próprio para ser uma auxiliar contra ele.

 

CONTRA ELE: raiz nagad, “estar próximo ou oposto”; “relatar, contar, narrar”.

Os rabinos dizem que o fato de a mulher ter sido tirada do corpo do homem explica o seu desejo de unir-se a ela. E por que de uma costela? Para sublinhar, em relação ao homem, sua vocação de interioridade. A relação fundamental entre o homem e a mulher é posicionada: ela está “contra ele”, bem próxima, em sua união; mas também “contra ele”, oposta à sua pessoa se a harmonia deixa de reinar entre eles.

 

O (v.23) diz: “HOMEM, MULHER: Ish, Isha, a mesma palavra no masculino e feminino. Distinguir de Gn 1:27: zakhar ouneqéba, macho e fêmea.

 

“ESTA AQUI” -  o termo zôt é empregado três vezes neste versículo para marcar a alegria do homem ao receber sua mulher: ele a acolhe, com este triplo brinde, como a uma bênção. Durante todo o tempo em que o homem esteve sozinho ele foi chamado de Adâm, o terroso, o humano; a partir da criação de sua fêmea, o texto passa a chamá-lo ish, o homem. Esta palavra e seu feminino, ihsa, contém cada uma, uma das duas primeiras letras do tetragrama, IH: em sua união, dizem os rabis, eles reúnem essas duas letras, impondo, desse modo, a presença de I HV H (Adonai) no casal; desunidos, adversários, eles separam essas duas mesmas letras e rechaçam a “presença”: nada resta então de ish e de isha senão as letras da palavras ésh, o fogo devorador e destruidor.

 

No (v.24) este é o primeiro mandamento da Torá: ele contém a ordem de crescer e de multiplicar, mas o ultrapassa. A finalidade do amor, aqui, é o amor: separar-se de seu pai e de sua mãe, a fim de ser uma só carne com sua mulher.

 

 

Israel Sarlo

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