1. mai, 2015

ANTROPOLOGIA – Aula 07

Conforme foi exposto na aula anterior, partimos das conjunturas de opressão, que Israel sofreu, e do Deus Libertador. A imagem de Javé neste contexto veterotestamentário, está caracterizada, por um lado, pela força violenta com a qual ele se vinga das derrotas de Israel (cf. Ex.15:1ss; Sl.68; Is.13; 60:10ss). Logo começam as nossas dificuldades de ligar, numa concepção coerente de Deus, os elementos de poder com os de amor. O Deus dos cristãos é um Deus de amor incondicional, não é? Mas o que significa amor em situações de opressão e libertação? Será que os inimigos de Deus até hoje devem ser aniquilados? Dessas dúvidas teológicas seguem-se uma pregação formal de um amor desvirtuado e, ao mesmo tempo, um comportamento brutal e agressivo contra aqueles outros que parecem contradizer a nossa própria ideologia. Assim, as igrejas cristãs, na sua longa história, muitas vezes se colocaram ao lado dos poderosos, defendendo, em nome do poder e da vingança, seus interesses particulares.

 

Mas a situação sócio-teológica mudou de lá para cá. Na antiguidade havia, no campo das religiões, um particularismo total, pois prevaleciam entidades étnicas, nacionais ou culturais autônomas no Oriente Médio. Somente a partir de Alexandre Magno se experimentou, com a helenização do seu vasto império, uma “espiritualidade” e cultura uniforme na Grécia e na Índia. O que percebemos antes deste período é, praticamente, a luta de clãs e etnias, nações e dinastias pela sobrevivência e hegemonia. Neste contexto, era inevitável que o deus conhecido e concebível aos israelitas fosse um Deus particular, à exclusão de outras entidades sociais. O amor divino se restringiu a um determinado povo __ conclusão muito natural para os israelitas, sendo que “os outros” haviam se ligado a outras divindades. Destacamos esta perspectiva antiga apesar do fato de alguns teólogos veterotestamentários, às vezes, conseguiram olhar além das próprias fronteiras (cf. Gn.12:3; Is.56:3ss), fato feliz porque mostra uma certa quantia de liberdade de fé dentro de sistemas sócio-políticos vigentes.

 

Daí, chegou Jesus, constituindo a igreja cristã. Foi o próprio Jesus histórico que começou a derrubar as barreiras étnicas e sociais. O homem distante ou hostil pode-se tornar próximo (cf. Mt.5:44; Lc.10:25ss). Ideal e teologicamente a comunidade da nova aliança englobam todas as raças e classes humanas (cf. At.2; Gl.2ss; Ef.2:13ss; Jo.17:15ss etc). E a igreja cristã, mesmo falhando e se desviando dos alvos do Senhor, sempre manteve pelo menos esses ou aqueles vestígios da fraternidade mundial dentro de suas estruturas organizacionais e vivenciais. E, por sinal, a unificação urgente da humanidade em prol das massas necessitadas e da sobrevivência do mundo inteiro, como a visou Jesus, se manifesta, hoje em dia, cada vez com maior claridade.

 

Como se pode imaginar, dentro de nossa situação, a inter-relação de poder e amor em Deus? A resposta mais simples e direta parece ser a seguinte: o amor divino não é mais exclusivo, mas sim inclusivo, abrangente. O amor, nem por isso, deve perder a própria vitalidade, isto é, não precisa deixar de ser partidário e afetuoso, abnegado e prudente. Ele atua, porém, dentro da humanidade inteira em prol da salvação integral. Concretamente, isso significa que o Deus Libertador se solidariza em primeiro lugar com os oprimidos e sofredores, sem perder de vista a recuperação dos opressores. Eles também são seres alienados de si mesmos, carentes da libertação deles, do seu poder excessivo e de suas riquezas roubadas.

 

(Continua na proxima aula)

 

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Israel Sarlo

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