2. mai, 2015

ANTROPOLOGIA – Aula 08

Com a unificação moderna da humanidade, levanta-se de novo o problema da unicidade de Deus. A pesquisa histórica mostra um fato curioso: já nos primórdios de sua história, junto com salvação pelo Deus Javé, até então desconhecido, introduziu-se em Israel o mandamento de se aderir a um único Deus. A realidade do mundo oriental, além de ser caracterizada pelo particularismo vigente, não era propícia a adoção de uma fé monoteísta. O homem antigo, muito antes disso, já havia experimentado, em sua vida diária, divergentes influências de inúmeras forças divinas. Neste ponto, na verdade, sofremos ainda profundamente num mundo que idealmente e por necessidade deveria se unir, mas se mostra fracionado e frustrado. Podemos dizer, portanto, que o politeísmo e o polidemonismo são construções bastante condizentes com a realidade empírica.

 

O monoteísmo antecipado do antigo Israel por isso correu o risco de se tornar instrumento da autodefesa, ou seja, da auto-afirmação particular de um determinado povo. E foi justamente isso que aconteceu em Israel. A doutrina de um único Deus, exclusivo, atingiu o seu máximo desenvolvimento dentro do AT, por volta do exílio babilônico, isto é, no século VI a.C. Foram os escritores deuteronômicos e deuteronomistas os que gravaram na memória do povo eleito a unidade do Senhor (cf.Dt. 6:4ss etc.), Seguidos pelo segundo Isaías (cf.40:12-31 etc.). Essa fé monoteísta reflete, portanto, uma situação concreta: a luta dos israelitas, após a derrota total, de sobreviver e de se reorganizar sem as instituições usuais, a saber, o reinado, o templo, administração autônoma.

 

Crer em um único Deus assim significava, neste período histórico, confiar firme e exclusivamente nele para manter a própria identidade. A asserção teológica de que existe apenas um único Deus, um Senhor justo e compassivo a toda a humanidade, é uma herança muito valiosa do AT. Queremos retomar o posicionamento dos antigos teólogos israelitas numa fase da história humana, na qual já estão visíveis plenamente padrões e estruturas do futuro universal do nosso planeta. Assim, a única saída para os múltiplos dilemas da nossa época parece ser a auto definição de todos os homens diante do Deus único. Neste sentido, cabe a todas a teologia particular, que cuida dos anseios concretos de indivíduos e grupos em especial dos oprimidos do mundo, de se entrosarem com as deliberações atuações das demais entidades. 

 

Outra problemática da nossa teologia, herdada do AT, gira em torno da natureza pessoal e particular de Deus. Javé, o libertador de Israel, normalmente foi concebida em termos bastante antropomórfico. Ele era portador de um nome pessoal. Mostrava vestígios de emoções humanas, de alegria, raiva, arrependimento, cansaço. Via de regra, foram-lhe atribuídas características de um ser masculino: embora não tendo esposa, como os deuses dos povos vizinhos, permanece um “ELE”, que se torna, mais tarde, amante e marido do seu próprio povo (cf. Os.2:16; Ez.16:6ss), na linguagem figurativa dos profetas. Javé era, desde o início, um deus comunicativo, falando com os homens em idiomas humanos ou sonhos e sinais. Enfrentava como guerreiro, os inimigos de Israel. Atuava de toda maneira como líder, guia rei, médico, arquiteto, juiz, pai, resgatador, marido, e assim por diante. É verdade, ele também se manifestava em fenômenos não-humanos, tanto no fogo ou no vento, como na ordem moral do mundo. Mas, considerando o fato de que todo o universo antigo era experimentando como um organismo profundamente personalizado, cabe constatar que predominavam, entre os conceitos teológicos do AT., elementos antropomórficos. 

 

É, no entanto, o que cria problemas para o nosso falar em Deus hoje. Os homens estão construindo um mundo, cada vez, mais personalizado. Este mundo transforma-se num aparelho mecânico nas mãos do próprio homem, obedecendo as suas mais absurdas ordens. Inevitavelmente, a vida humana se adapta às regras mecânicas implantadas nesta criação artificial. Em conseqüência, temos enormes dificuldades de harmonizar a imagem pessoal de Deus com o mundo moderno dominado por tecnocracias, burocracias e suas normas desumanizantes. Será que Deus ainda pode-se manifestar com pessoa dentro de uma fábrica, operando conforme as leis férreas da produção? Será que Deus ainda tem vez nos cálculos e estatísticas dos cientistas?

 

Não obstante, a desilusão com o mundo contemporâneo, seria teologicamente ilegítima simplesmente condenar este desenvolvimento moderno, numa tentativa ilusória de voltar a um estado “natural” e paradisíaco. Antes disso, precisamos descobrir Deus até mesmo nos mecanismos despersonalizados do nosso próprio mundo. Pois, essa nova criação do homem não aconteceu por acaso. Foi Deus que a permitiu e inspirou até hoje. Para compreendermos esse Deus, temos que admitir conceitos adequados da nossa experiência, inclusive alguns tirados do mundo mecanizado e impessoal.

 

Não será fácil tal renovação da teologia em correspondência com a vida contemporânea. Mas, o AT nos pode ajudar, oferecendo modelos de teologia para um contexto científico, ou seja, sapiencial, insistindo, ao mesmo tempo, na predominância da vida sobre as regras mecânicas. Se já é difícil lidar com os problemas de uma teologia “despersonalizada”, muito mais ainda será se libertar de uma teologia machista imposta, até nossos dias, por uma ordem social profundamente patriarcal. Também, neste ponto, temos que falar em Deus de maneira nova, superando as limitações históricas da conceituação veterotestamentária.

 

(Continua na próxima aula.)

 

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Israel Sarlo

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