2. mai, 2015

ANTROPOLOGIA – Aula 09

Se o Deus vivo atua de maneira libertadora até no interior do sistema teológico, de estruturas econômicas e mentais, como lidaremos com a sua invisibilidade e transcendência, igualmente sugeridas pelos teólogos veterotestamentários? Pois, em contraposição ao próprio antropomorfismo mencionado anteriormente, os mesmos autores do AT proclamam Javé como Deus sem imagem qualquer (cf. Ex.20:4-6; Dt. 4:12ss). Será ele um deus não-imaginável? Que experiência temos de um deus inconcebível?

 

Não é fácil entrar nessas especulações meio filosóficas. Mas nosso intelecto, condicionado, sobretudo, pela tradição grega de raciocinar levanta tais perguntas e exige respostas. Convém se conscientizar, no entanto, de que os israelitas proibindo quaisquer imagens de Deus, partiram de pressupostos diferentes. Também naquela época, convém lembrar: adorar a um Deus não-representável era um fenômeno inédito; jamais, contudo, um problema intelectual para os crentes do mundo semita. Tratava-se, antes, de uma questão de poder. Os israelitas consideravam ilegítimo tentar capturar a potência divina por meio de artefatos humanos (cf. Is.44:9ss). Provavelmente, não foi assim desde o início da história de Israel. Conheciam-se muito bem, nos primórdios, diversas representações de Javé (cf.Nm.21:8s; Ex.32:4). Porém, a experiência decepcionante do homem querer usurpar o poder divino por meio de controle sobre as imagens da deidade, levam-no a abandonar os artefatos. Foram substituídos, isto sim, na história judeu-cristã, por símbolos indiretos da presença do Senhor, como a arca, o templo, os sacrifícios, o rolo da Torá e outros. Os quais, por sua vez, constituíram novas tentações à presunção humana. Não são comparáveis, todavia aquelas antigas representações diretas de deus.

 

A pergunta para nós, portanto, permanece essencialmente a mesma: Como imaginar e compreender a presença de Deus no nosso tempo, sem pretender manipulá-lo conforme a nossa própria sabedoria? Temos que lutar contra as verdades abstratas; confiamos em Deus que se revela concreta e humanamente. Sabemos, pois, muito bem, da necessidade de indicarmos as manifestações concretas de Deus no nosso mundo atual. A fé real precisa, portanto, de uma ou outra maneira, de representações e símbolos de Deus. Ao mesmo tempo reconhecermos, hoje em dia, até mais profundamente do que os antigos israelitas, as tentações e os perigos de quaisquer imagens do divino. Elas transformam-se em ídolos com grande facilidade.

 

A propaganda comercial ou política oferece muitos exemplos do abuso dos conceitos divinos. Deificam, com impunidade, produtos, figura, idéias bem limitadas e até perversas. Uma das tarefas da teologia seria, nesta altura, estabelecer critérios fidedignos para uso certo de representações e símbolos de Deus. O AT nos pode ajudar em muito neste empreendimento. Podemos tirar conclusões importantes da própria experiência israelita. Em primeiro lugar, o AT nos adverte séria e justamente contra a simples identificação de Deus com qualquer símbolo. O Supremo não se esgota em nenhuma manifestação sua; ele jamais se torna o objeto da nossa ambição de poder. Em segundo lugar, é, de fato imprescindível, usarmos semelhança, idéia, conceitos de Deus que adequadamente descrevam a sua presença no nosso mundo. Em outras palavras, temos que usar símbolos tirados do nosso mundo. Em outras palavras, temos que usar símbolos tirados do nosso próprio ambiente. Não é legítimo, por exemplo, numa sociedade democrática que garante direitos e deveres iguais a homem e mulher, falar em Deus em termos monárquicos e machistas.

 

Poderíamos continuar o exame das atribuições necessárias e certas de Deus na nossa época. Bastam, porém, os exemplos mencionados.

 

Vejamos algumas perguntas interessantes:

Como devemos compreender a atuação divergente de Deus nas sucessivas fases da história?

Qual o papel do sofrimento, inclusive do sofrimento injusto e arbitrário, na revelação de Deus?

As catástrofes nacionais e globais que estão se aproximando, tem algo a ver com a realidade de Deus?

Quais são, hoje em dia, as bênçãos e quais as maldições provindas da fonte divina?

Como harmonizar, dentro da nossa teologia, os conceitos de um deus conservador com os de um deus renovador do mundo?

A pregação de Jesus Cristo e da primeira cristandade corrigiu ou aboliu, em pontos essenciais, a teologia veterotestamentária?

 

Assim perguntamos, sobretudo preocupados com a realidade latino-americana: ela não somente aliena e desumaniza o povo, mas também tortura e desafia o próprio Deus.

 

Sem dúvida nenhuma, toda a humanidade de hoje, em especial o Terceiro Mundo, precisa de um Deus Libertador. Os homens estão presos em sistemas alienantes, que eles mesmos criaram. Sofrem, portanto, pressões, explorações, brutalidades em todos os cantos da terra. A grande maioria da população mundial nem pode Ter o mínimo necessário para uma vida digna. Será, que Deus a esqueceu? Ou será verdade, que uma libertação equivalente àquela prometida aos israelitas já está se realizando nos nossos tempos? Quem sabe, este Deus Libertador ainda vai devorar as classes e nações poderosas como fez com os antigos Egípcios, Medianitas, Cananeus e Amoritas? Seria isto um ato de amor combativo e zeloso em prol dos oprimidos que ao mesmo tempo visaria a libertação dos opressores? Pois, como indicamos antes, após a chegada de Cristo não se pode mais pensar em quaisquer particularismos.

 

O Deus Libertador é responsável pela humanidade inteira.

FIM.

 

Israel Sarlo

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