5. jun, 2015

A ORTODOXIA TRADICIONAL

A “ortodoxia tradicional” (tal como chamaremos, mas sem levantar quaisquer questões) teve, segundo dizem, sua primeira formulação oficial no Segundo Concílio de Constantinopla, em 553. Dentre as suas resoluções encontram-se os nove anátemas do Imperador Justiniano contra Orígenes, o último dos quais declara: “Se alguém disser ou pensar que a punição dos demônios e dos homens ímpios é apenas temporária e um dia cessará... seja anátema (“Os Sete Concílios Ecumênicos”).

 

Os anátemas de Justiniano foram adotados por um sínodo ocorrido anteriormente, em 543, em Constantinopla. Há alguma dúvida sobre se estes anátemas foram adotados pelo concílio ecumênico de 553, ou se mais tarde foram interpolados em seus registros.

 

A ortodoxia tradicional foi baseada em vários trechos bíblicos aparentemente claros, em sua maior parte baseada no próprio ensino de Jesus, encontrado nos evangelhos. Jesus falou do homem rico no Hades, atormentado pelo fogo, que desejava que o mendigo Lázaro molhasse a ponta do seu dedo na água, a fim de refrescar a sua língua, e falou do grande abismo existente entre ambos e que ninguém poderia atravessar. Jesus também falou do fogo inextinguível, do verme que não morre e do choro e ranger de dentes do Geena. O mais surpreendente de tudo é que ele empregou exatamente o mesmo adjetivo na mesma sentença em que fala de “vida eterna” e de “castigo eterno”. Depois de declarar que no dia do juízo o Filho do homem diria aqueles que estivessem a sua esquerda: “Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos”, ele conclui a solene afirmação com as palavras: “E irão estes para o castigo eterno, porém os justos para a vida eterna”.

 

O mesmo ensino, só que declarado com expressões ainda mais fortes, é encontrado no livro de apocalipse, onde se afirma a respeito daqueles que adoram a besta que “a fumaça do seu tormento sobe pelos séculos dos séculos”. Mas ainda afirma: “o diabo, o sedutor deles, foi lançado para dentro do lago do fogo e enxofre, onde também se encontram não só a besta como o falso profeta; e serão atormentados de dia e de noite pelos séculos dos séculos.” (Lc.16:19-31; Mc.9:43,48; Mt.8:12; 25:41,46; Ap.1411; 20:10). Esta expressão “pelos séculos dos séculos” é empregada repetidamente em Apocalipse em referência ao reinado de Deus e dos santos; parece lógico, portanto, inferir que os tormentos dos perdidos sejam tão infindáveis quanto a alegria dos remidos.

 

 

Israel Sarlo

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