6. jun, 2015

A IMORTALIDADE CONDICIONADA

(complemento do texto anterior)

 

A outra alternativa, a possibilidade de que os perdidos no final deixem de existir, requer uma análise muito mais séria. Os condicionalistas (é assim que os defensores da imortalidade condicional são chamados) aguardam a ressurreição de todos os homens, a qual será seguida por uma sentença justa de acordo com os merecimentos de cada um, o que significará angústia (mas não o tormento sem fim) para aqueles fora de Cristo, finalmente se encerrando na Segunda morte.

 

Alguns, embora nem todos, crêem que não há uma existência consciente de uma alma sem o corpo entre a morte e a ressurreição, mas que, no momento da morte, todos passam para um sono da alma sem completa inconsciência. Isto significa que o primeiro lampejo de consciência do redimido depois da morte seriam as boas vindas ao paraíso, isto é, ao céu, boaS vindas a serem dadas por Cristo.

 

O condicionalista tenta provar sua afirmação levantando perguntas fundamentais. Por exemplo, a Bíblia ensina que a alma é imortal? Antes ela não ensina que a alma que pecar morrerá? (Ez.18:4, Rm.6:23). Ás vezes se diz que a Bíblia não ensina a imortalidade da alma, mas que a admite implicitamente. Todavia, é estranho que uma verdade tão importante não seja implicitamente ensinada. O ônus da prova recai sobre aqueles que afirmam que a Bíblia admite implicitamente a imortalidade da alma). As expressões mais comumente usadas, “morte”, “destruição”, “perecer” e a metáfora do fogo que consome matéria vegetal, não sugerem um fim? (A descrição da Geena é baseada no depósito de lixo do Vale de Hinom, fora de Jerusalém, onde o fogo lento queimava incessantemente e onde os vermes consumiam incansavelmente o lixo podre.).

 

A Bíblia não chega a ensinar que o homem é mortal e que o pecado é uma força autodestruidora, cuja recompensa final é a destruição completa do corpo e da alma? A imortalidade não é parte do dom da vida eterna, dada aqueles que se tornaram participantes da natureza divina através da união com Cristo? [Só o Senhor tem imortalidade (1ª Tm.6:16); os que praticam o bem procuram a imortalidade (Rm.2:7); a imortalidade é revelada através do Evangelho (2ª Tm.1:10); aqueles que estiverem em Cristo se revestirão da imortalidade (1ª Co.15:54); eles têm se tornado participantes da natureza divina (2ª Pd.1:4)].

 

A insistência do universalista na eternidade de todas as almas não é uma tendência em direção ao panteísmo? E a insistência do tradicionalista na eternidade das almas em pecado não é uma tendência em direção ao dualismo? Estas são algumas das perguntas que os condicionalistas tendem a fazer.

 

Alguns, como L.E. Froom, desafiam a fidedignidade da afirmação de Hodge de que o tormento sem fim tenha sido virtualmente a única posição doutrinária das principais correntes do cristianismo, baseada numa crença monocromática existente no judaísmo do primeiro século. Eles concordam que a partir do século sexto até a Reforma, o tormento sem fim representou a ortodoxia aceita, com poucas vozes discordantes, e que depois da reforma continuou a ser dominante nas principais igrejas, pelo menos até o século XIX, embora com um volume cada vez maior de discordância.

 

Eles negam que o tormento interminável fosse tão largamente aceito pelos judeus do primeiro século, de modo que os ouvintes de Jesus obrigatoriamente tivessem interpretado seu ensino neste sentido, sem ter havido alguma rejeição específica da parte de Jesus. Eles afirmam que a imortalidade condicional foi geralmente aceita na igreja primitiva até que os pecadores tentaram casar a doutrina platônica da imortalidade da alma com o ensino da Bíblia. Este jugo desigual, dizem, gerou dois frutos bastardos:

 

- O UNIVERSALISMO (tal como ensinado por Clemente e por Orígense de Alexandria).

 

- O TORMENTO ETERNO (tal como ensinado por Tertuliano e por Agostinho).

 

Quando os textos bíblicos principais, que parecem tão inexcusáveis, afirmam que o fogo inextinguível e o verme que não morre significam apenas fogo que não se extingue e vermes que não morrem, até que seu trabalho de destruição se complete. Eles têm tratado da questão da punição eterna em seus resultados (como a punição do “fogo eterno” que destruiu Sodomo e Gomorra e que é mencionada em Judas 7), mas não em seu sofrimento. É um ato de conseqüências eternas, não uma ação eterna. Outros afirmam que o conceito subjacente á palavra grega aionios é o do pensamento judaico da época, que falava de duas eras em contraste: “esta era presente” e “a era vindoura”. A vida eterna é a vida da era vindoura e a punição eterna é a punição da era vindoura. A primeira tornou-se possível com a vinda de Jesus e o início de seu reinado; a última será administrada por Jesus, na qualidade de Filho do homem, quando ele pronunciar o juízo final. A menção feita por Cristo à “vida eterna” e ao “castigo eterno” basicamente não tem a ver com a eternidade dos dois destinos, mas com a inevitabilidade do que acontece quando se consuma o advento da nova era. Estes dois pontos de vista não são mutuamente exclusivos, e podem ser sustentados simultaneamente.

 

Os condicionalistas também negam que o Apocalipse de João, obra repleta de simbolismo, tenha o objetivo de nos descrever um estado final que inclua a continuação do pecado e do sofrimento. A fumaça do tormento que sobe para sempre representa a lembrança do triunfo da justiça de Deus, não um queimar contínuo das pessoas afligidas. Quando à parábola do rico e de Lázaro, observam que o cenário é o Hades, não a Geena (o Hades será lançado um dia para dentro do lago de fogo) Ap:2014, e que a passagem é mais figurada do que literal. Seria arriscado para qualquer escola de pensamento extrair conclusões literais a partir dessa passagem a respeito da topografia do mundo vindouro.

 

Caso se diga que o condicionalismo desvaloriza o impacto da intimidação bíblica, visto que “crer na aniquilação não passa de crer naquilo que o ateu crê” e muitas pessoas em tormentos poderão receber bem a aniquilação, os condicionalistas responderão dizendo o seguinte:

 

1. O ateu não tem concepção alguma da maravilha e da bem-aventurança do céu.

2. Ele, portanto, não faz qualquer idéia do que significa desprezar o céu, desprezar o próprio propósito para o qual foi feito.

3. Ele não percebe o que estará envolvido no pavor de aguardar o juízo e na angústia e no remorso de se apresentar nu diante de Deus para ver o seu verdadeiro eu revelado e ouvir o Juiz sentenciar: “Apartai-vos”.

4. É questionável se alguém de fato deseja a aniquilação. O ser humano se apega tenazmente à vida e é discutível que a perspectiva de aniquilação seja o mais temível de todos os destinos. Certamente é a mais final de todas as tragédias.

 

Se o propósito da Bíblia é descrever o horror do justo juízo e da destruição final seu linguajar não é exagerado.

 

(Os condicionaistas consideram que sua doutrina age de modo mais dissuasivo do que o ensino tradicional, argumentando que este último não é crível para aqueles que o ouvem e, portanto, simplesmente não é aceito. Horbery (p.274) cita, embora discordando, um autor que coloca a questão da seguinte maneira: “Apenas imaginamos que cremos nisso... Nada que seja demasiadamente enfatizado, ou que pareça exagerado, causa surpresa à Mente. Caso um professor diga a seu aluno que seu pai o enforcará se não estudar, ele rirá diante da ameaça. Tal ameaça é exageradamente desproporcional tanto aos seus próprios deméritos, como a idéia que ele faz da equidade de seu pai.”)

 

 

Israel Sarlo

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