Entenda as origens

10. mai, 2015

O descobrimento do acádico no século XIX e do ugarítico e eblaíta neste século permitiu conhecer o semítico anterior à Bíblia, que ajudou a esclarecer os primeiros passos do hebraico e das formas literárias da Bíblia. A filologia bíblica moderna se divide em múltiplas especializações, segundo a língua utilizada para comparação dos textos bíblicos: trilinguismo hebraico-aramaío-árabe, trilinguismo hebraico\aramaico-grego-latim e trinlingüismo hebraico\aramaico-ugarítico-acádico.

 

O biblista deve formar-se em ao menos um destes trilinguismo. É preciso reconhecer, por outro lado, o cruzamento influências entre estes trilinguismos e a relação com outras línguas orientais (siríaco, etiópico, copta, armênio etc.) O estudo de numerosos escritos apócrifos do AT e inclusive do NT exige a análise de fontes conservadas somente nestas línguas.

 

 

Israel Sarlo

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26. abr, 2015

TRILINGUISMO

 

Depois da destruição de Jerusalém e a conseguinte proibição de que os judeus habitassem na cidade e cercanias, as escolas rabínicas se refugiaram na Galiléia. A língua literária destas escolas era o hebraico, enquanto que as línguas utilizadas comumente na Palestina, nesta época, eram o aramaico e o grego, e em menor proporção o latim. Se os escritos da comunidade essênica de Qumrã foram ainda compostos num hebraico muito próximo aos dos livros bíblicos, a composição de textos jurídicos que constitui a Mixná, concluída nos começos do século III dC, foi feita em hebraico mixnaico. As cartas de Bar Kokba, datadas nos anos da segunda revolta dos judeus contra Roma (132-135 dC), provam que o hebraico continuava sendo uma língua viva.

 

Nos períodos tannaíta e amoraíta as línguas de referência para o estudo da Bíblia foram o hebraico mixnaico e o aramaico; o influxo do grego fazia-se visível, sobretudo no uso de termos técnicos e no relacionamento com as instituições sociais e religiosas.

 

No período árabe, nos tempos, sobretudo, de Se'asiah Ga'on, as línguas de referência foram o aramaico e o árabe. Os judeus iemenitas conservaram o costume de aprender a Torá, versículo por versículo, em forma trilíngue: o texto hebraico, o aramaico do targum Ônkelos e o árabe Tafsir na tradução de S'eadiahj.

 

Os judeus espanhóis mantiveram acres disputas sobre a convivência e a necessidade de aplicar o hebraico as descobertas e sistematizações dos filólogos árabes (Menahenb ben Sarug a favor e Dunash ben Labrat contra). O desaparecimento da Espanha muçulmana pôs fim ao cultivo deste trilinguismo semítico.

 

A partir do século XV ressurgiu o trilinguismo hebraico-grego-latim. O movimento de volta às fontes dos humanistas não se reduziu ao labor de recuperar o texto da Vulgata e o texto grego do Novo Testamento (N.T), senão que tratou de alcançar o texto hebraico original do A.T. Deste modo surgiu o homo trilinguis, protótipo e ideal do humanista.

 

Ao final do século XVI praticamente a totalidade da literatura hebraica (bíblica, rabínica e medieval) já se encontrava à disposição dos hebraístas cristãos. Todavia, desde meados deste mesmo século, católicos e protestantes começaram a perder, por razões diferentes, o contato direito com as fontes judaicas.

 

Israel Sarlo

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25. abr, 2015

A BÍBLIA TRILÍNGUE E O TRILINGUISMO BÍBLICO 

 

Quase desde os seus primeiros momentos a BÍBLIA foi uma obra poliglota. A BÍBLIA hebraica contém partes em aramaico; a BÍBLIA transmitida pela tradição cristã recolhe livros escritos em grego ou traduzidos ao grego. Não é menos importante o fato de a BÍBLIA ter sido lida e interpretada desde o primeiro momento em relação com uma segunda língua. Desde a época do Exílio, os judeus viveram em um contexto bilíngue ou trilíngue; em consequência, liam e estudavam a BÍBLIA hebraica sempre em contato com outra língua, o aramaico a partir da época persa e o grego, durante as épocas helenística e a bizantina.

 

O mapa linguístico da Palestina por volta da mudança de Era e no momento do nascimento do cristianismo caracterizava-se por enorme pluralismo. Em Jerusalém e na Judeia falava-se preferencialmente o hebraico e o aramaico como segunda língua. O hebraico conheceu uma época de renascimento a partir da revolta nacionalista dos Macabeus (meados do século II aC). Simultaneamente produziu-se também um verdadeiro renascimento da literatura hebraica (Ben Sirac, Tobias, Jubileus, Testamento de Neftali, escritos da comunidade de Qumrã etc). A cunhagem de moedas com inscrições hebraicas constitui também uma prova do ressurgir desta língua e da importância oficial da mesma.

 

Jesus de Nazaré falava certamente aramaico, mas não se pode excluir a possibilidade que se servisse também do hebraico e inclusive do grego. Na zona costeira mediterrânea e na região da Galileia falava-se o aramaico, com uma certa preponderância sobre o grego. Nesta região o hebraico era só uma língua literária.

 

 

Israel Sarlo

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23. mar, 2015

Para além das críticas feitas contra a tendência da teologia bíblica em conferir significado teológico a determinadas palavras, independentemente do contexto em que se encontra a semântica bíblica não pode menosprezar as características do pensamento semítico que conforma a linguagem e a lexicografia da LXX com o Novo Testamento. Termos como dóxa, diathêkê, psikhê, soma, diánoia, kòsmos etc., acrescentam sentidos novos e diferentes a respeito do significado que tinham os termos hebraicos correspondentes. Não se pode olvidar, por outro lado, que a experiência vivida pelos primeiros cristãos a possuía também força criadora de linguagem, que haveria de desembocar na cunha de neologismo como antikhristos, diábolos, euaggelismós, entre outros.

 

Quis-se também explicar a particularidade do grego bíblico mediante a hipótese da existência de um dialeto “judeu-grego”, escrito e falado por judeus de diversos lugares e épocas. Atualmente tende-se a explicar as características próprias do grego da LXX como um fenômeno derivado da própria tradução, o que justifica e torna necessário um estudo intenso das técnicas de tradução utilizadas. O fato de tratar-se de uma tradução justifica o estranho significado dado a alguns termos, o uso indiscriminado de termos próprios da prosa ou da poesia, a cunhagem de neologismos, etc. Para definir o grego neotestamentário recorreu-se a uma explicação eclética que leva em conta fatores bastantes diversos:

OS LIVROS BIOGRÁFICOS SINÓTICOS e

LOGIA DE JESUS EM PARTICULAR.

 

Eles refletem um grego da tradução, mais literário que literal; o influxo da LXX, evidente ao longo de todo o NT, manifesta-se sobretudo no LIVRO DE LUCAS, assim como na utilização das CARTAS PAULINAS de conceitos hebraicos como de “JUSTIFICAÇÃO” ou “PROPICIAÇÃO”; o APOCALIPSE reflete sobretudo a fala judeu-grega das sinagogas.

 

 

Israel Sarlo

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9. mar, 2015

O estudo dos papiros encontrados no Egito (Deissmann), permitiu perceber que a língua da LXX e do Novo Testamento é reflexo da língua Koiné ou comum, falada na época helenística, desde Alexandre Magno até o fim da época antiga nos tempos de Justiniano (século VI). Os papiros oferecem paralelos, ex., a uma forma tão característica da LXX coo êltha, "eu vim" (êlthon" em ático).

 

É preciso advertir que era koiné a língua vulgar do povo grego como a língua culta dos escritores da época (Políbio, Estrabão, Fílon, Josefo e Plutarco). Exemplos do grego koiné coloquial judaico aparecem nos escritos de Jose e Asenet e nos Testamentos dos 12 Patriarcas. Conservam a estrutura básica do dialeto ático, misturado com elementos jônicos, dóricos e eólicos, com contribuições sintáticas, lexicais e estilísticas de outras línguas. Entre as contribuições contam-se numerosos semitismos e latinismos. Entre os primeiros cabe assinalar o giro de prosétheto.

 

No século I e II dC produziu-se um movimento "aticista" que pretendia devolver à língua comum a correção e o estilo dos áticos. Esta corrente afetou 4 Macabeus, as obras de Josefo e também a transmissão textual da versão da LXX. Os copistas desta época trataram de corrigir o estilo da antiga versão adaptando-a aos antigos cânones áticos. Assim por exemplo a forma koiné eîpan, "eles disseram", foi corrigida pela forma clássica eîpon.

 

A consideração do grego bíblico com língua koiné do período helenístico não impede que se reconheça, contudo, as peculiares características da língua da Bíblia grega e em particular do NT, que não pode simplesmente, sem matizes, ser identificada com o grego "secular" dos papiros. O influxo semítico se adverte não somente na presença de semitismos e aramaicos, mas também na lexicografia e na semântica. Assim por ex. o termo hipóstase do NT (b. 11:1) encontra melhor explicitação a partir do grego da LXX e do seu equivalente hebraico (tohelet, "esperança confiante e paciente"), que a partir do grego parousía está mais próximo do significado que lhe dá Josefo (Antiguidades Judaicas, 3, 203), referente ao círculo em torno do tabernáculo (quer dizer, a Shekînâ ou presença teofânica de Deus), que ao significado de vinda ou presença régia, sentido recebido nos papiros.

 

Israel Sarlo

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