23. jul, 2014

CÂNON - (Aula 12 e 13)

Nos últimos anos vieram abaixo os pressupostos sobre os quais se baseavam estas teorias. Lewis e Leiman jogaram por terra o hipotético fechamento do Cânon em Jâmnia no ano 90 dC. Sundberg demonstrou a existência de um Cânon Alexandrino e Puvis minou a "conexão samaritana", situando o chamado Cisma do Século II aC, depois da canonização dos livros proféticos e não antes.

 

Atualmente parece desenhar-se a tendência de considerar a formação do cânon hebraico na época dos Macabeus, até meados do século II aC. Continua sem solução a questão sobre a origem do que mais tarde seria chamado o Cânon Cristão do AT. Se não podemos ainda dizer que os cristãos receberam dos judeus da diáspora uma lista de livros mais ampla que a da Bíblia hebraica, temos que buscar uma explicação que justifique o fato de os cristãos não se sentirem limitados ao cânon hebraico restrito.

 

Este fato parece ter, por outro lado, antecedentes na comunidade essênica de Qumrã. Se não havia consciência de estarem abrindo de novo um cânon já fechado, reconheciam, ao que parece, a alguns escritos, um caráter sagrado comparável ao dos livros incluídos no cânon (o livro dos Jubileus, VanderKam) e é possível , ao contrário, que rechaçassem algum livro canônico como o de Ester.

 

Mesmo em meados do século II aC quando o cânon hebraico era essencialmente o mesmo para todos os grupos judaicos (saduceus, fariseus, essênios e judeus da diáspora - diáspora significa a volta dos judeus a sua terra, quando Êxodo seria a saído do povo judeu de sua terra), a perspectivava segundo a qual uns e outros o usavam, determinava correntes e interpretações diferentes, o que autoriza a falar quase de cânones diferentes ou de vários cânones dentro do cânon.

 

CÂNON E CÂNONES NO NOVO TESTAMENTO:

A questão do cânon do NT foi reaberta nas décadas passadas. No campo teológico a discussão girou em torno da tese de Kasemann, segundo a qual o cânon neotestamentário não funda a unidade da Igreja, senão que atesta melhor a pluralidade e diversidade de igrejas desde o início do cristianismo. Tende-se hoje, no entanto, a ultrapassar os limites do cânon, tanto no caso do NT como do AT, estudando os livros canônicos em relação com toda a literatura da época, e em particular com os livros apócrifos judaicos e cristãos.

 

Até os finais do séculos XIX a literatura apócrifa era ainda em grande parte desconhecida. A edição definitiva da obra de Schurrer (entre 1901-1909) constituiu uma síntese dos materiais conhecidos até então. O período entre as duas grandes guerras mundiais não conheceu descobertas significativas neste campo. A descoberta dos manuscritos do Mar Morto supôs, ao contrário, uma autêntica revolução. Contudo, os estudos e as mudanças de mentalidade procedem bastante devagar, como exemplificar o fato de uma obra importante em pleno 1974 ainda dizer em sua introdução que não era preciso levar em conta estes manuscritos, pois não fazia parte da tradição judaica (Compendia 1974, introdução do editor). Pelo contrário, um decênio mais tarde, e desde outro extremo, G. Vermes se colocou a pergunta, qualificada por ele mesmo como "temerária", de se não justificaria retirar a autonomia dos estudos do NT e descrevê-los pura e simplesmente, junto com os demais escritos judaicos da época, no campo da história do judaísmo em geral (Vermes). Se não deixa de ser unilateral tratar de esboçar uma figura de Jesus deixando de lado tudo que se refere ao seu julgamento e morte, mas unilateral seria todavia reduzir o NT ao parâmetro do judaísmo da época.

 

Israel Sarlo

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