25. jul, 2014

O TEXTO DA BÍBLIA E OS TEXTOS BÍBLICOS - (Aula 15)

Antes do descobrimento dos textos bíblicos de Qunrã pensava-se que a transmissão do texto bíblico tinha seguido uma linha única e reta, que partia dos autógrafos dos autores bíblicos e chagava até os manuscritos hebraicos medievais, e destes às nossas edições impressas. Os manuscritos bíblicos de Qumrã colocaram em relevo, no entanto, que a história da transmissão dos textos bíblicos no período helenístico é muito plural e complexa. Pode-se resumir a história, ainda inclusas, dos descobrimentos de Qumrã, aludindo a quatro sucessivas surpresas no estudo dos manuscritos.

 

- A primeira surpresa é oferecida pelos grandes manuscritos de Isaías estudados nos anos 50. Estes manuscritos confirmaram a enorme fidelidade com que o texto hebraico foi conservado furante os mil anos que mediaram entre a época de Qumrã e os séculos IX e X, época em que foram copiados os manuscritos medievais conservados até hoje.

 

- Anos mais tarde estudou-se outros manuscritos, especialmente os livros de Samuel e Jeremias, que mostram claras divergências com relação ao texto hebraico massorético e coincidiam, pelo contrário, em grande parte, com a forma de texto representada pela versão dos LXX. Isto deu passagem à idéia de que alguns livros da Bíblia conheceram uma espécie de "segunda edição, corrigida e ampliada". O texto desta segunda edição é o transmitido pela tradição textual massorética, enquanto que a forma de texto mais breve e mais original é a que foi conhecida pelos tradutores da versão dos LXX.

 

- O estudo de novos manuscritos veio a demonstrar que o Pentateuco Samaritano não constitui, como se acreditava, um texto "sectário" samaritano (salvo ligeiros acréscimos de tal caráter), mas reproduz um tipo de texto conhecido em toda a Palestina no século II aC, época muito posterior a do suposto cisma. O estudo destes textos "proto-samaritanos" obrigou a redimensionar a história do próprio cisma.

 

- Por último, os manuscritos bíblicos, ou melhor, "parabíblicos", vindos ao conhecimento recentemente, "Paráfrase do Pentateuco", colocaram problemas até agora insuspeitos, como é a necessidade de estabelecer critérios que permitam definir onde se situa a fronteira entre o bíblico e o não-bíblico, de modo que um novo texto possa ser classificado entre os manuscritos bíblicos ou ser colocado numa espécie de terra de ninguém, onde estão textos "fronteiriços", "antológicos" ou "parafrásticos". Em alguns setores do judaísmo o texto bíblico ou algumas foram de mesmo admitiam ainda um desenvolvimento considerável, sem perder com isto, seguramente, o seu caráter de texto bíblico. A pesquisa futura se concentrará sem dúvida nestes textos "fronteiriços" entre o bíblico e o não-bíblico. Tudo isto coloca questões necessariamente relacionadas com a problemática do cânon.

 

Israel Sarlo

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