10. ago, 2014

CRÍTICA X HERMENÊUTICA - (Aula 19)

No século XVIII a crítica da Ilustração e no século XIX a hermenêutica romântica desenvolveram uma literatura teísta ou totalmente dessacralizada da Bíblia. A crítica história converteu a Bíblia num livro a mais na imensa biblioteca da literatura do Antigo Oriente e do mundo greco-romano, e a religião bíblica em uma religião a mais entre as muitas religiões da Antiguidade.

 

Seguindo uma tendência característica tanto da ilustração como do Romantismo, o interesse da crítica moderna dirigiu-se preferencialmente à forma e ao sentido "originais" dos textos bíblicos, como abandono, senão desprezo, de toda história da interpretação levada a cabo, posteriormente, pelo judaísmo e pelo cristianismo. Os pressupostos hermenêuticos e preconceitos da crítica histórica se faziam mais palpáveis em considerações, geralmente, negativas das épocas tardias e em particular dos processos finais de redação dos livros bíblicos, assim como das numerosas interpolações e as glosas são expressões de tendências próprias de épocas decadentes, judaizantes no caso do Antigo Testamento e catolizantes nos caso do Novo Testamento.

 

A submersão dos textos bíblicos no oceano da literatura antiga, separados do meio natural em que se desenvolveram (a tradição rabínica na Tanak e na tradição cristã no conjunto formado pelo AT e NT), não deixou de suscitar reações contrárias, que tratavam de salvar sobretudo o específico da religião e da literatura bíblica. Por outro lado, a "suspeita" sistematizada sobre os textos bíblicos que a crítica moderna parece difundir, junto à provisoriedade e incerteza que rodeiam muitas das suas conclusões, provocou, em outras correntes de estudos bíblicos atuais, uma reação de "suspeita" sobre seus métodos e resultados.

 

São muitas as vozes que se levantam contra uma leitura arqueológica da Bíblia, que dá valor preferencia ao núcleo mais primitivo, muitas vezes hipotético, de textos proféticos ou evangélicos, sem levar em conta o valor mediador da tradição posterior e da história da interpretação bíblica (o espaço hermenêutico que cobre a "distância temporal" entre o texto e o intérprete contemporâneo).

 

Israel Sarlo

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