11. nov, 2014

A COMPLEXIDADE DO HEBRAICO - (Aula 30)

O hebraico tomou do semítico oriental numerosos termos, em especial aqueles pertencentes aos campos semânticos referentes à administração da justiça às instituições governamentais e o exercito. Em muitos casos é impossível comprovar se tratam de fato de empréstimos. Sempre há a possibilidade de serem termos pertencentes ao patrimônio comum das línguas semíticas.


Os empréstimos das línguas não semíticas oferecem um interesse particular. Do Persa procede o termo pardês, que através do grego da LXX (parádeisos) e do latim da Vulgata (paradisum) deu origem aos vocábulos "paraíso",, "paradisso", "paradis" etc., das línguas latinas. A distância existente entre as línguas hebraicas e persa podia ocasionar uma tal deformação do termo emprestado, que em muitas ocasiões é difícil reconhecer qual termo persa deu origem ao correspondente hebraico. O livro de Ester menciona o rei persa "Assuero", melhor e mais conhecido por "Xerxes".

A linguística comparada pode esclarecer tornou ou passagens obscuras do AT com palavras ou expressões análogas em outras línguas semíticas. As fontes acádicas sempre se sobressaíram neste tipo de estudos. O codescobrimento dos textos de Ugarit em 1929 orientou os estudos até o marco geográfico e cultural cananeu, habitat natural da língua e da literatura bíblica. Nos textos ugaríticos pode-se reconhecer, por exemplo, nas partículas hebraicos be- e le-, além do significado respectivo "em" e "a", "para", também o significado "de" ou "desde". Em consequência, na expressão de Isaías 59:20 o texto hebraico deverá ser traduzido por l"um redentor virá de Sion", conforme interpretação atestada em Romanos 11:26. Texto ugaríticos paralelos aos texto bíblicos permiti reconstruir a forma e o significado primitivo de palavras hebraicos mal copiadas ou mal interpretadas na tradição manuscrita (Dahood). Isto permite propor novas e melhores traduções de numerosas passagens do AT.

 

 

O hebraico é uma língua muito próxima do fenício. Ambas demonstram claras diferenças em relação ao aramaico. Ambas possuem o artigo prefixado (ha-), enquanto que o aramaico utiliza o sufixo determinativo -a. Igualmente o pronome da primeira pessoa 'anokî ou o substantivo bem ("filho") do fenício e do hebraico se contrapõem aos correspondentes aramaicos 'ana' e 'bar' respectivamente.

 

Há diferenças também na gramática e na lexicografia, como por ex., nos verbos "ser" e "fazer" a forma do relativo, a foram causativa, a pronúncia do a do semítico comum, que o fenício pronúncia do a d semítico comum, que fenício pronuncia coo o e o hebraico como etc.


O conceito de "hebraico bíblico" não deixa de ser uma ficção, como o é também o de "texto bíblico" ou, inclusive, o de "texto massorético". Os textos bíblicos refletem um milênio inteiro de desenvolvimento linguístico, pelo que não podem deixar de refletir hebraicos diferentes e de term incorporado diversos dialetos. As diferenças dialetais entre o hebraico de Judá no Sul e o de Israel no Norte remontam a dialetos cananeus do segundo milênio aC. As mudanças produzidas no vocabulário ou noutros aspectos da língua podiam dar ocasião a numerosos mal-entendimentos. Assim, por ex., depois de ter assassinado seu irão Abel, Caim quixa-se diante de Deus dizendo: "Meu castigo é insuportável" (Gn 4:13). A palavra "castigo" ("awon) veio significar mais arde "crime" ou "pecado". Esta mudança de significado deu pé aos exegetas judeus para converterem a figura de Caim assassino na de um pecador arrependido, traduzindo a frase do Gênesis nestes termos: "Meu pecado é grande demais para esquecê-lo". Esta interpretação pode ser motivada por uma tendência teológica, mas não deixa de ter apoio na ambiguidade oferecida pelo próprio texto bíblico.

Israel Sarlo

 

 

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