26. abr, 2015

DESAFIO - A BÍBLIA TRILÍNGUE - Aula 41

TRILINGUISMO

 

Depois da destruição de Jerusalém e a conseguinte proibição de que os judeus habitassem na cidade e cercanias, as escolas rabínicas se refugiaram na Galiléia. A língua literária destas escolas era o hebraico, enquanto que as línguas utilizadas comumente na Palestina, nesta época, eram o aramaico e o grego, e em menor proporção o latim. Se os escritos da comunidade essênica de Qumrã foram ainda compostos num hebraico muito próximo aos dos livros bíblicos, a composição de textos jurídicos que constitui a Mixná, concluída nos começos do século III dC, foi feita em hebraico mixnaico. As cartas de Bar Kokba, datadas nos anos da segunda revolta dos judeus contra Roma (132-135 dC), provam que o hebraico continuava sendo uma língua viva.

 

Nos períodos tannaíta e amoraíta as línguas de referência para o estudo da Bíblia foram o hebraico mixnaico e o aramaico; o influxo do grego fazia-se visível, sobretudo no uso de termos técnicos e no relacionamento com as instituições sociais e religiosas.

 

No período árabe, nos tempos, sobretudo, de Se'asiah Ga'on, as línguas de referência foram o aramaico e o árabe. Os judeus iemenitas conservaram o costume de aprender a Torá, versículo por versículo, em forma trilíngue: o texto hebraico, o aramaico do targum Ônkelos e o árabe Tafsir na tradução de S'eadiahj.

 

Os judeus espanhóis mantiveram acres disputas sobre a convivência e a necessidade de aplicar o hebraico as descobertas e sistematizações dos filólogos árabes (Menahenb ben Sarug a favor e Dunash ben Labrat contra). O desaparecimento da Espanha muçulmana pôs fim ao cultivo deste trilinguismo semítico.

 

A partir do século XV ressurgiu o trilinguismo hebraico-grego-latim. O movimento de volta às fontes dos humanistas não se reduziu ao labor de recuperar o texto da Vulgata e o texto grego do Novo Testamento (N.T), senão que tratou de alcançar o texto hebraico original do A.T. Deste modo surgiu o homo trilinguis, protótipo e ideal do humanista.

 

Ao final do século XVI praticamente a totalidade da literatura hebraica (bíblica, rabínica e medieval) já se encontrava à disposição dos hebraístas cristãos. Todavia, desde meados deste mesmo século, católicos e protestantes começaram a perder, por razões diferentes, o contato direito com as fontes judaicas.

 

Israel Sarlo

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