25. fev, 2017

II CORÍNTIOS – Parte histórica – Aula 03

Parte 03 de 04

III.        Subseqüentes relações de Paulo com a Igreja de Corinto.

 

Depois que Paulo saiu de Corinto, a obra de expansão e consolidação da igreja foi levada adiante por Apolo, homem douto oriundo de Alexandria. Este havia estado antes em Éfeso, onde, conquanto batizado somente com o batismo de João Batista, pregara a Cristo. Sua pregação foi ouvida por Áqüila e Priscila, que o tomaram “consigo e, com mais exatidão, lhe expuseram o caminha de Deus” (At.18:26). Armado deste novo conhecimento, Apolo foi para a Acaia, província cuja capital era Corinto. Ali sua eloqüência foi empregada para demonstrar “por meio das Escrituras que Cristo é Jesus” (At.18:28). Parece que é este o sentido do grego (embora a VR diga, “Jesus é o Cristo”). A expressão implica em que o pregador e os ouvintes esperavam igualmente a vinda do Messias (Cristo). Mas Apolo podia dizer: “O Messias que esperais é Jesus.”

 

Muitas vezes se tem dito que Apolo usou o método alegórico de interpretação da Escritura. Pode bem ser que o tenha feito, mas a única prova é que ele vinha de Alexandria, ninho paterno da interpretação alegórica. Seja, porém, qual for o seu método, quase certamente diferia do de Paulo. A prédica de Paulo tinha estudada simplicidade (1Co 2:2-4); a de Apolo era provavelmente retórica em alto grau (At.18:24, Paulo fala de Apolo como continuando a obra que ele iniciara (1Co 3:6,8). Mas a diferença na apresentação era suficiente para produzir certo  partidarismo da parte de alguns coríntios (Nestas cidades, com as suas populações móveis, ávidas e excitáveis, paixões de alguma espécie são, não apenas um traço comum, mas quase uma necessidade social... Com diz Renan... Basta que haja dois pregadores, ou dois mestres, numa das pequenas cidades da Europa meridional, e logo os habitantes ficam em lados opostos quanto a qual é o melhor dos dois mestre, podem estar nas melhores relações; isso de modo algum impede que os seus nomes sejam transformados em grito de guerra dos partidos, e o sinal para deflagrar veementes dissensões. Proctor observa que o processo teria sido auxiliado pela multiplicidade de raças em Corinto).

 

Algum tempo depois, Paulo escreveu uma carta aos coríntios, carta que sumiu. A prova  da sua existência acha-se em 5:9, onde Paulo diz que anteriormente escrevera uma carta dizendo aos crentes que não se associassem “com os impuros” (AV: “com os fornicários”; ARC: “com os que se prostituem”). Não sabemos mais nada sobre essa carta, ou sobre como Paulo veio a escrevê-la. Alguns eruditos acham que parte dela está preservada em 2ª Co.6:14; 7:1. Se, como é provável, esta hipótese deve ser rejeitada, a carta desapareceu inteiramente. Isto não tem por que causar surpresa. A referência de Paulo a ela em 5:9 mostra que fora mal compreendida. Mencionou-a apenas para eliminar um falso conceito quanto ao que ela queria dizer. Assim, a carta mais recente substitui com vantagem a anterior, e, por conseguinte, não havia propósito em preservá-la.

 

Houve depois contatos mantidos por Paulo com certos coríntios. Gente da casa de Cloe levou-lhe notícias da existência de facções na igreja (1Co 1:11). Foi-lhe enviada uma carta a igreja (1Co 7:11), presumivelmente levada por Estéfanas, Fortunato e Acaico (1Co 16:17). Conseqüentemente, Paulo se dispôs a escrever á igreja. A carta que conhecemos como 1ª Coríntios é o resultado. Desta carta aprendemos que nem tudo ia bem na igreja coríntia. Há algumas coisas que ele diz com muita fraqueza. Paulo evidentemente percebeu que a situação estava começando a agravar-se, pois resolveu mandar Timóteo, e de fato o mandou antes de expedir 1ª Coríntios (ver 4:17; 16:10,11). Que Timóteo fez apenas uma breve visita é indicado pelo fato de que ele se juntou a Paulo na saudação de 2ª Coríntios. Ao tempo em que aquela carta foi escrita, ele estava de novo fora da cidade (a menos que, como é possível, ele nunca tenha chegado lá). Mas Timóteo não pôde fazer muita coisa.

 

A situação piorou, em vez de melhorar. É curioso que não temos informação quanto á causa exata do problema. Pode Ter sido uma ou outra das questões mencionadas em 1ª Coríntios. Não sabemos. Mas evidentemente envolvia uma negação da autoridade de Paulo. Paulo achou necessário deixar a sua obra em Éfeso e fazer corrida visita na tentativa de endireitar as coisas. Alguns duvidam que esta seja uma boa reconstrução dos eventos, mas certas passagens de 2ª Coríntios tornaram-na bem segura. Assim, diz Paulo: “Eis que pela terceira vez estou pronto a ir ter  convosco...” (2ª Co. 12:14), enquanto que em 2ª Co.13:2 olha retrospectivamente para “quando estive presente pela segunda vez” (RV; ARA). Quando essas palavras foram escritas, é patente que tinha sido feita uma visita adicional aquela quando a igreja fora fundada. As palavras não se referem, como algum têm sustentado, ás intenções de Paulo, antes que uma visita concretizada. Como Moffatt convincentemente argumenta: “Contra pessoas que suspeitavam da sua coerência e boa vontade, teria sido pouco útil alegar que ele estivera sinceramente intencionada a vir, que estivera pronto para visitá-lo”. Deve  Ter-se referido a uma visita feita. As suas referências a vir de novo em tristeza ou pesar (ex. 2ª Co.2:1) indicam a natureza desagradável daquela visita.

 

Alguns especialistas situam esta visita antes de ser escrita a 1ª Coríntios, mas não foi exposta boa razão para isso. Essa epístola parece implicar somente numa visita anterior, aquela durante a qual foi fundada a igreja (ex. 2:1; 3:2; 11:2). Outra visita é prenunciada (4:19), mas não é ainda fato consumado. O conhecimento q eu Paulo tinha das coisas de Corinto não era pessoal, mas derivava da casa de Cloe (1:11; cf.5:1; 11:18), e de uma carta da igreja coríntia (7:1). Evidentemente a Segunda visita foi uma coisa muito penosa. O tom geral de 1ª Coríntios é inexplicável depois de uma visita dessa. Parece muito mais de acordo com a evidência pensar na situação implicada em 1ª Coríntios como em processo de deterioração depois do recebimento dessa carta. Assim, a visita penosa tornou-se necessária.

 

Embora esta visita tenha evidentemente produzido algumas falas francas, não conseguiu normalizar a situação. Paulo  partiu de Corinto profundamente inquieto. T.W. Manson  acha que ele foi para a Macedônia. Nega que de Éfeso fosse feita uma visita apressada, e sugere que Paulo concluiu a sua obra nessa cidade e depois deu prosseguimento a seu plano esboçado em 2ª Co 1:15 ss.. A vantagem disso é que elimina a necessidade de pressupor uma visita partindo de Éfeso. A desvantagem é que para levar Paulo a Trôade (2ª Co 2:12), ele tem que pressupor uma expedição especial feita na região de Trôade. Também que em 2ª Co 1:15 ss. Paulo fala do plano como se tivesse sido abandonado, não como se ele tivesse começado a pô-lo em execução. Parece melhor pensar na visita penosa como uma interrupção do ministério entre os efésios, de sorte que agora voltou para Éfeso.

 

Paulo resolveu escrever outra carta. Tinha esta obviamente um tom muito severo, e lhe custou muito escrevê-la (2ª Co 2:4; 7:8). Se não tivesse obtido sucesso, pode-se conceber que significaria uma ruptura final entre Paulo e esta igreja que ele fundara. Como a primeira carta que escrevera aos coríntios, esta carta severa também se perdeu, a não ser que, como pensam alguns estudiosos, parte dela esteja preservada em 2ª Co 10-13 (há irresistível razão para crer que 2ª Coríntios 10-13 é parte da severa carta e que 2ª Co1-9 é uma carta posterior. Por outra lado, diz: “as cartas antigas tinham bem segura proteção contra esses entrelaçamentos acidentais, no fato de que o endereçamento da carta ficava no reverso do papiro. Isso tornaria difícil tomar acidentalmente uma parte de uma carta por outra carta, e um editor que sem bases visíveis fizesse duas cartas de quatro seria uma figura estranha, especialmente se ele suprimisse da carta intermediária a matéria essencial referida em 2º Co 2 e 7, e ainda usasse um fragmento dessa carta em 2ª Co 10-13. Daí, devemos contentar-nos com a perda dessas duas cartas, a saber, a primeira, original, e a terceira, intermediária). Pelo que se vê, a carta foi levada por Tito,  que deveria voltar via Macedônia e Trôade. Paulo estava impaciente para saber como ela fora recebida. Foi a Trôade, mas, não encontrando Tito, não pode ficar em paz ali. Fez a travessia para a Macedônia (2ª Co 2:13, 13. Ali o encontrou Tito, com as boas novas de que tudo estava bem (2ª Co 2:14 ss.; 7:6 ss.). Em sua grande alegria, Paulo escreveu a carta que denominamos 2ª Coríntios. É quase certo que ele visitou a igreja logo em seguida.

 

Desta forma, temos conhecimento de três visitas feitas por Paulo a Corinto: 

1.         Quando foi fundada a igreja.

2.         A visita penosa.

3.         Uma visita depois de ter sido enviada 2ª Coríntios.

 

Houve quatro epístolas: 

1.         A Carta “Anterior”.

2.         1ª Coríntios

3.         A Carta Severa.

4.         2ª Coríntios.

 

Uma discussão mais pormenorizada desta estruturação pertence com maior propriedade à introdução de 2ª Coríntios. Basta aqui anotar prova suficiente para colocarmos 1ª Coríntios em sua posição própria na seqüência dos procedimentos de Paulo para com a igreja de Corinto.

 

Israel Sarlo

www.facebook.com/caminhoeavida